Nunca deixará de ser o primeiro (re)encontro



Encolhi os ombros e deixei a poeira baixar. Passei por cima da mensagem e segui como, se o lembrete no celular não existisse. Não minto, não tive coragem de apagar, e fiquei curiosa tentando puxar qualquer assunto corriqueiro que fosse. 

Há anos não tenho notícias suas.
Passou tão depressa assim que não me dei conta?

Claro que não. 

Só eu sei o que eu sofri com as despedidas prematuras, com aquelas idas e vindas que me massacravam a razão. Lembrei do domingo a noite quando você praticamente me sequestrou por duas horas, a fim de dizer que estava diferente e que também pesava os prós e contras do nosso último encontro. Você sempre veio em partes miúdas, curtas e avassaladoras. 
Sempre deixou marcas, tatuagens abertas que o tempo foi se encarregando de reconstruir. 

Senti o fôlego sumir. 
Senti que não sabia mais nada de mim, menos ainda do amor. 
Minha vida estava um caos desestruturada de tudo, sem eixo, nada concreto me sustentava. E quando tudo acalmou, você ressurgiu cutucando de novo uma ferida que não fecha. 

Mas admito de novo que me sentia superior a você. 
Me sentia superada, vencida. E você só virou o jogo. 
Abriu a porta e despertou de novo a sinceridade de sentir os descompassos me desorientando - você nunca me deixa de pé, sempre me puxa a flutuar.

Me desconheço quando está por perto. 
Me desencontro de todas as minhas convicções. 
Eu tô tentando ignorar a vontade de ler você, saber o que quer, mesmo sabendo que no fim vou acabar caída de novo com a cara no chão - e adianto, não é covardia ou pessimismo - é lição aprendida. Você provoca os melhores sentimentos em mim, mas nunca se compromete a ficar até o final. 

Somos opostos , intensidade e terra firme e eu sei que aí dentro bagunço tudo - e você detesta admitir que até a cor dos meus óculos são engraçadas pra você. 
Te prendo mesmo quando você voa em direção contrária. 
E eu sei que a mesma desordem que mora em mim, se hospeda no seu peito. 
E é isso que me acalma. Irônico não é? 

Não temos o final feliz com encontros e beijos mornos, mas nos enroscamos com vontade quando o coração se ausenta da órbita rotineira e pede uma dose de nós. Loucura santa que arrepia os pelos do braço e aquece a alma. Eu abri a mensagem, sorri com seu atrevimento, e não me culpo por desejar você de novo, e de novo. É assim que nós damos um jeito de dizer que ainda há espaço pra amar em silêncio nessa vida outra vez.



MARCELY PIERONI.
Escritora, administradora e chef de cozinha por escolha. Perdeu o medo de sair do lugar e desde que começou a publicar seus textos coleciona viagens onde pode abraçar seus leitores e estar mais perto daqueles que acolhem sua baguncinha. Palestra e conta histórias para crianças. É sonhadora de riso frouxo.

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