Follow Us @soratemplates

terça-feira, maio 08, 2018

TE ETERNIZEI NUM PAPEL AMASSADO


— Eternizei você num poema. — disse ele abruptamente, sem eu mal terminar de dizer alô. — Estava deitado naquela rede vermelha e observava o calor subir do asfalto quando me lembrei de você... Os dedos coçaram afoitos, ansiosos por agarrar um lápis e te rascunhar... Tinha só um pedaço amassado de papel de pão, sabe? E eu te desenhei ali mesmo, letra por letra, linha por linha. Um tanto torto e bem zoado, mas ficou tão você naquele papel pardo... Sei lá, menina, acho que ao te ver tão amarfanhada ali em minhas mãos, me dei conta de tudo que fiz para que você ficasse machucada desse jeito, tal qual o papel que te pintei poesia... Eu sei, eu sei, eu sei... São águas passadas e não tem porque remexer e cutucar cicatrizes, mas assim que concluí aquelas linhas, senti uma urgência imensa de te ligar e te narrar a saudade mínima que bateu de ti, enquanto eu observava o marasmo de domingo e escutava o silêncio... Achei injusto, talvez, que eu te eternizasse assim, tão minha, e te escondesse no fundo de alguma gaveta, até que fosse descoberta por dedos finos e compridos de qualquer mulher ciumenta demais para revirar minha bagunça poética... Enfim, garota. Eu só liguei para contar que sinto, às vezes, a tua falta, que sonho contigo quase sempre, que tenho um querer bem imenso e que quase rezo todos os dias pedindo pela tua felicidade, menina, porque você merece ser bem mais feliz do que desenhei nas linhas tortas e amassadas deste poema...

E desligou, sem eu mal terminar de dizer alô.

MAFÊ PROBST.
Santa Catarina. Escritora, blogueira e engenheira. Praticamente uma hipérbole ambulante. Autora de Saudade em Preto e Branco. Tem dezenas de projetos em andamento e sonha abraçar o mundo. Colecionadora de sorrisos, dentes-de-leão e clichês.

Nenhum comentário:

Postar um comentário