SINFONIA DO ADEUS


João Sampaio e Sophia Saavedra - Clip Sinfonia do Adeus - Baco Exu do Blues
► Para ouvir enquanto lê: Sinfonia do Adeus - Baco Exu do Blues

"Mentir pra si mesmo é sempre a pior mentira" - já dizia Renato Russo.

Desculpa, Renato. Mentir pra si mesmo é foda, significa que é preciso uma conversa com seu próprio coração para tentar consertar as coisas, buscar o amor-próprio e ir atrás de seu equilíbrio. Mas mentir para outra pessoa... Cara, chegue mais... Lidar com o sentimento alheio e, simplesmente, brincar de se fazer presente quando, na verdade, tudo não passa de um mero capricho, é puro egoísmo de quem não respeita ninguém. Você envolve a pessoa que diz que te ama, envolve de ambos a família, os amigos, conhecidos. Anda de mãos dadas, preenche gavetas, o espaço vazio na cama, a cadeira na mesa da sala, preenche os planos de fim de semana, próximo feriado, das comemorações das datas marcantes... preenche o peito do outro. Mas, no fim das contas, tudo o que pretendia preencher é o próprio ego.

Não existe quem queira estar só, se prestar ao papel de ocupar o tempo - e a vida - de alguém que está em busca do amor. Somos culpados pela nossa própria expectativa, confesso. Mas as nossas expectativas são reflexo do que vemos o outro ser capaz de nos oferecer, pelo nosso próprio convívio com ela. E essa capacidade é subjetiva. Em um dia, um abraço pode ser tornar casa e gerar o desejo de ali se morar para toda a vida. Em uma semana, os beijos contínuos se tornam alimento para saciar um forte desejo de se viver o amor. Em um mês, dois, dez...

Ok! Nos cegamos. Deixamos de prestar atenção nas entrelinhas e não percebemos a falta de pequenos gestos que nos deveriam dizer: "Olha, ninguém passa tanto tempo sem te dizer que gosta de você". Espera, mas não há somente palavras, tem gente que não consegue dizer, mas demonstra através do agir. Mas... se tudo deve ser espontâneo, será que o tempo demora tanto para agir e permitir que a voz explane o desejo do coração? Será que você não consegue perceber que a ausência dessa espontaneidade já traz algo de perigoso nessa estrada?

Mas continuemos a caminhar... Se envolva. Goste mais. Esteja apaixonado. Ame! Intensamente, ame! E depois descubra que tudo não passou de uma grande mentira. Que o excesso de silêncio nos pequenos dizeres, era realmente aquilo que você pensava ser um boicote ao próprio querer. Mas ao contrário do que você acreditava como sendo alguém que busca se esconder do próprio sentimento por medo do que está por vir, o boicote ocorre de outro modo. A pessoa não gosta de você. Nunca gostou. Se boicotou todo esse tempo por um motivo simples: Ela sempre quis estar só. Você foi, convenientemente, mantido ali para satisfazer caprichos. Talvez o sexo, talvez a companhia, talvez sua prestatividade, talvez sua inteligência, sua amizade, sua preocupação com ela, seu trato com a família e amigos, sua doação sempre esperando uma reciprocidade que nunca chegou. Você esteve ali apenas como um pequeno objeto de deleite para que o egoísmo te transformasse em algo que poderia ser tudo. Menos você mesmo.

E, olha. Você sempre se culpou por suas inseguranças, não foi? Em parte, isso também foi culpa sua. Todo o caminho que você percorreu até o instante que a encontrou. Mas e a partir dali? Quantas vezes ela disse que queria estar ali? Quantas vezes ela te olhou nos olhos e disse o quanto você a fazia feliz? Quantas vezes disse o quanto gostava de você? Isso mexe contigo, não?! Como ter certeza que a pessoa que está ao seu lado te deseja tanto quanto você a deseja e não tem a mínima vergonha na cara de dizê-la o que sente? Mas você só escutou o silêncio.

Mas você também errou. Uma. Duas. Dez vezes talvez. Mas, colocando na balança, será que você foi incapaz de fazer a outra pessoa feliz? Será que, dos momentos em que estiveram juntos (que não foram poucos), os erros se sobressaem aos acertos? Será que a gente não erra tentando acertar, ainda mais quando a outra pessoa se fecha num mundo quase intransponível que lhe traz mais dúvidas do que certezas? E você ainda ali, tentando desvendar mistérios que, talvez, nem a própria pessoa soubesse responder. Mas, ao menos você tentou. Alguém dos dois tentou.

Ela não é uma pessoa ruim. Nesse momento você a pintou como alguém vil, egoísta, egocêntrica, sem caráter, sem amor-próprio ou empatia com os sentimentos do outro. Você pôs na sua cabeça que a pessoa só fez brincar com seu coração e depois te abandonou sem nem querer olhar para trás. “Mas, olha... podemos ser amigos”. Desculpa, amigos se respeitam, mesmo com desejos diferentes, não fazem o mal ao outro. Ah, mas isso tudo é rancor, justamente, porque os desejos foram em caminhos opostos! Acho que não... términos são foda. Doem. Nos fazem sofrer. Não conheço ninguém que não tenha passado por isso. Mas descobrir que você foi usado todo esse tempo, nos faz questionar sobre a nossa própria capacidade de sermos bons o suficiente para os outros. Te digo uma coisa... Sim, você é bom o suficiente para alguém, para qualquer pessoa que esteja disposta a dividir o seu próprio mundo contigo. É foda mentir para si mesmo, mas mentir para alguém que se permitiu estar com o outro. Cara, isso não tem nem definição. Você é melhor que isso. Você merece muito mais. Deixe que o outro se engasgue em suas próprias mentiras... e nem pense em desejar o mal à pessoa, tudo o que vai, um dia volta. Para você, continue sempre se permitindo ser quem você é, afinal doamos ao outro o que cada um tem de melhor.


VITOR VILAS BÔAS

Baiano, professor de história, apaixonado por política, café basquete, fórmula 1, natureza e pizza de atum com catupiry. Hoje caminha sem muita pressa pelas ruas de Aracaju, deixando as ideias fluírem através do encanto captado pelos seus olhos e ouvidos. Anda, frequentemente, de sorriso e coração abertos, vivendo com a intensidade que os seus 30 anos ensinaram.


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