QUANDO O FIM É INEVITÁVEL


Não consigo dormir. São três e meia e toda hora que alcanço o relógio suspiro silenciosamente. Tudo está pesado aqui dentro. Refiz o percurso que dividimos horas atrás. Recalculei todas as minhas respostas e é óbvio que eu poderia ter dito mais.  Você esperava mais também. Dava pra ler em cada gesto apavorado. Você não costuma gesticular tanto. Senti a sua agonia ainda longe, enquanto caminhava sem jeito em sua direção.

Percebi a sua urgência de ter tudo em pratos limpos enquanto acompanhei seus olhos me atingindo em cheio. Sede de respostas,  não é mesmo? Eu não te culpo. Vacilamos através do tempo. Não dissemos tudo que deveríamos dizer,  nem mesmo o que era preciso. O silêncio estancando as feridas abertas, fazendo o coração pulsar ainda mais rápido.

Os dedos entrelaçados conversando sobre os nós que fomos deixando se amontoar. 
Ensurdecedor não ouvir uma única frase me pedindo pra ficar.

Foi o impasse. Incompatibilidade? Talvez. Mas ainda aposto no medo convicto que nós dois temos do "mais".  Às vezes tenho a impressão que uma porta se abre e comprime nossas certezas. Roubam nossas promessas tão cheias de histórias e carregadas de esperanças. É como se tudo desaparecesse no instante seguinte.  E eu sinto o mesmo vazio que você. Sinto o chão se abrir nessa incógnita que nunca soluciona nada.

Pra onde vamos? O que fazer? Cadê o mapa? Onde faremos a próxima parada?

Não há garantia. E nós dois sabemos que não existem cartas marcadas. São escolhas que podem ou não valer o esforço. E eu juro pra você que queria tentar de novo. Queria sentir as mesmas coisas. Embalar os passos nesse vácuo amoroso que seus olhos me proporcionam, mas o coração calejado não quer. Está pronto pra se recolher. Pra se refazer em outros carnavais. Não quer sentir o ar sumir quando tudo ficar complicado demais pra você e sem vestígio algum te enxergar indo.

Não dou conta de perder você de novo! Será que isso você percebeu?

Foi um não tão carregado de sim. Tão cheio de esperanças pra nós. Bastava você acordar e entender que eu sempre estive ali. Só você não via. Por causa dessa insegurança absurda que te faz recuar quando na verdade o desejo maior é de ir. Você tenta nos proteger da gente mesmo, como se sentir fosse compensar a ausência. Mas não muda. Incomoda. Dilacera. Será que você não entende? 
Pra que ficar e dizer que tô disposta, se daqui quinze dias corro o risco de vê-lo fazer as malas sem intervenções?

Esse amor que você alimenta não é compatível ao meu. Preciso de você disposto e não oposto às minhas direções. As diferenças nos aproximam sim, mas também nos distanciam de repente. Você se choca contra ao que sente e volta dez passos. Eu já vi esse filme e o mais triste é o final.

MARCELY PIERONI.
Escritora, administradora e chef de cozinha por escolha. Perdeu o medo de sair do lugar e desde que começou a publicar seus textos coleciona viagens onde pode abraçar seus leitores e estar mais perto daqueles que acolhem sua baguncinha. Palestra e conta histórias para crianças. É sonhadora de riso frouxo.

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