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segunda-feira, janeiro 22, 2018

Vamos fingir que está tudo bem


Vamos fingir que tudo está completamente bem. Que o dia nublado continua sendo sinônimo de brincar e ver formas aleatórias nas nuvens de algodão. Vamos fingir que a multidão não sufoca, o piscar das luzes não desfoca a visão e a música alta é totalmente agradável aos ouvidos. Que a ardência que desce seca na garganta, depois de um gole amargo é mais gostosa que o gelar dos dentes num picolé caseiro feito com suco de saquinho. Que palhaços ainda têm as piadas mais engraçadas e maçã do amor é apenas uma fruta com cobertura doce e não uma metáfora sentimental. 

Vamos fingir que ser gente grande é divertido. Que aguentar o chefe mal humorado é melhor que suportar tomar banho quente depois de ralar os joelhos. Que a demorada fila do banco é muito mais divertida que a ansiedade que fica ao esperar para entrar no carrinho de bate-bate. Vamos fingir que as contas são divertidas, que ambientes para fumantes não são sufocantes, que o gosto da cerveja é docinho e que bares não são oceanos para afogar mágoas. Porque afinal, basta fingir que está tudo bem e as únicas mágoas serão ter que parar de comer balas e escovar os dentes ou dormir cedinho para ver desenho animado no outro dia pela manhã. 

Vamos fazer de conta que enfrentar dificuldades é como a pedrinha na amarelinha que é preciso pular numa perna só para ultrapassar e que nem o céu é o limite, porque não há limites para a criatividade. Que coração partido se cola com super bonder, que nossos pedaços são quebra-cabeças com peças faltando, mas que perder elas por aí não é tão importante quanto imaginar o que falta na figura e bagunçar tudo de novo.  

Vamos brincar que a vida é faz de conta, que fadas com suas varinhas mágicas vão trazer de volta aqueles que partiram. Que pessoas imortais existem e bruxas podem dar poções de felicidade. Que florestas guardam segredos, que piratas enterram tesouros com mapas perdidos e que não é só nos livros onde o viver é colorido. Vamos fingir que histórias infantis não são pseudo-ensinamentos para adultos, são apenas contos bonitinhos.

Vamos fechar os olhos e imaginar que é só rebobinar a fita e o lado gelado da cama vai estar preenchido novamente. Vamos fingir que o amor não cega, que o perfume não gruda e lembranças não voltam para assombrar. Que músicas não viram trilha sonora de momentos e que quando eles se vão escutar novamente é tortura. Que saudade já não tem um novo significado muito mais dolorido e perdoar não exige muito mais de si do que do outro. 

Vamos fingir que a humanidade não sufoca, que padrões não são regras na nossa cabeça tola que segue inconscientemente as ditaduras camufladas. Que política é apenas show de horrores e votar não define um passo sequer da nossa trajetória, que somos independentes e liberdade não tem um significado muito mais profundo que apenas a definição denotativa. Que o trânsito trancado é tão reconfortante quanto andar de patinete ou bicicleta no parque e o cheiro de diesel queimado é dez vezes melhor que o aroma das flores que te fazem ter crises de espirros. 

Vamos fingir que está tudo bem, que crescer é divertido e que daqui em diante só melhora. Vamos deitar a cabeça no travesseiro e mais uma vez preencher o sono de nostalgia, fechar os olhos e doer no peito a certeza de que o que resta é o passo a frente e que o que ficou foi apenas o início do fim.


GABRIELLE ROVEDA.
1997. Escritora de gaveta, bailarina por paixão, sonhadora sem os pés no chão e modelo só por diversão. Do tipo que vive mais de mil histórias pelas páginas dos livros, daquelas que quer viajar o mundo só com uma mochila nas costas, do tipo que acredita no amor a todo custo e dispensa de imediato pessoas sem riso fácil. Não sabe fazer nada direito, mas insiste em acreditar que o impossível é só uma daquelas palavras que vão cair em desuso e se vê tentada a tentar de tudo. Viciada em café e em escrever cafonices sobre si e o amor sem dizer nada ao certo.

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