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O ÚLTIMO TEXTO QUE FAÇO PRA VOCÊ



Esta será a última vez que escrevo sobre você.

Decidi, finalmente, te enterrar junto com todas estas palavras, me permitindo viver o luto antes. Me permito, pela última vez, falar sobre o nosso fim, chorar pela saudade que já senti e por tudo ter desmoronado, virando pó com todos aqueles planos que fizemos.

Eu, tola, acreditava que duraria para sempre e isso fez a dor se arrastar ainda mais dentro de mim. Sangrei inúmeras vezes por perceber que alguém que eu jamais imaginei viver sem, hoje é um mero desconhecido que eu não vejo e não falo.

Sangrei ainda mais nas vezes em que te encontrei em meus sonhos... Alguns eram como uma memória do passado, uma lembrança do que fomos. Outros, mais reais, denunciavam o enorme abismo que se abriu entre nós.

E aí bastava eu abrir os olhos para sentir o coração pequenino, quase que esmagado pela angústia do que foi e também do que não foi. Mas, das vezes em que o sangue jorrou, a que eu a vi ali, toda de branco e de mãos dadas com você, foi a mais sofrida. Ela usava véu e grinalda branca – como você sempre quis e sonhou – e eu, por ironia, hoje encontrei meu refúgio no preto.

É, eu sei que eu nunca fui e nunca seria a mulher que entraria com você pelo corredor daquela igreja. Mesmo assim dói – mais uma vez, pelo que fomos e também pelo que deixamos de ser. Então, agora, estou me permitindo derramar todas as lágrimas que guardei com as nossas fotos e a nossa história.

Silenciei todas estas lágrimas nas vezes que eu senti, por pura nostalgia, o teu cheiro no travesseiro (que nem é mais o mesmo) e o aconchego do teu abraço. Já te enxerguei em cada coisa da casa, até mesmo no que você nem tocou. Você fez morada nos móveis do mesmo jeito que fez em mim.

Mas, sendo realista, sei que você seguiu em frente desde o dia da tua partida, talvez até antes dela. Algumas vezes as pessoas falam de você perto de mim ou até mesmo para mim, reforçando ainda mais essa ideia. Não sei e nem me importa saber a intenção delas, mas em todas as vezes ficou evidente que você está feliz e que deve ter perdido a memória - junto com todo o sentimento que eu acreditava que você tinha - de quando eu estava ao seu lado.

Mas olha, eu já falei demais sobre nós.
Já revivi cada detalhe.
Já sangrei muito.
Já chorei um rio de dor e saudade.

Agora é hora de lacrar o caixão, dizer adeus e deixá-lo descansar na terra, assim como eu também preciso de um descanso de tudo isso. Assim como a nossa história não faz mais parte das nossas vidas, também preciso que você deixe de fazer parte de mim... 

Desta vez, não por desespero, mas por aceitar que não há mais nada de nós além do nosso fim.



BEATRIZ ZANZINI.

Jornalista, escritora e filósofa de bar. Escrevo em uma tentativa de me descobrir e também de desvendar o mundo. E então percebi que, ao compartilhar minhas ideias e sentimentos, às vezes consigo ajudar não só a mim mesma, mas também outras pessoas que se identificam com as minhas vivências. Isso me traz uma inspiração ainda maior a cada dia.

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