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O AMOR QUE ME LIVRE


►Leia ao som de Saber Voar, Chimarruts◄

Eduardo limpou os óculos em sua camisa de cetim e os colocou novamente no rosto. Não queria acreditar no que via. Coçou a barba com agonia - ainda incrédulo. Ele era desses que vivia no trabalho - literalmente. Nunca saía do escritório nem na hora do almoço. Preferia devorar um sanduíche enquanto analisava minuciosamente alguma campanha de um dos vários clientes da empresa. 

Paula, sua namorada, reclamava que desde a promoção, a obsessão de Eduardo pelo trabalho tinha piorado bastante. "Faço isso pra alcançar nossa liberdade e independência, amor", era o que sempre argumentava. No Whatsapp, seu status estava atualizado com um famoso trecho de Legião Urbana: "Disciplina é liberdade". Era mais que um simples jargão, era um lema de vida para ele.

Eduardo arregalou os olhos por trás de suas lentes garrafais e continuou estático. Era Paula bem na sua frente como nunca tinha visto - ou como ele não reparava há tempos. Estava impecavelmente linda! Seus cabelos pretos em tom azulado brilhavam, seus olhos gigantes com algumas camadas de máscara de cílios, um vestido com estampa floral em um fundo de cor verde água. 

Paula segurava em suas mãos um violão rosa - primeiro presente que ganhou de Eduardo. Atrás dela toda uma estrutura de palco montada - de forma improvisada - perfeitamente. Todo o pessoal do escritório ajudou na surpresa, sabiam o quanto Eduardo precisava de mais leveza. Ele precisava exatamente daquilo: parar por uns instantes. E bem, Paula parecia a única capaz de conseguir essa proeza.

Paula começar a cantar e dedilhar "Saber voar" da banda Chimarruts. Exatamente a mesma canção que estava cantando no dia em que se conheceram num laboratório de exame de sangue. Ela cantava na sessão infantil pra distrair e acalmar as crianças das agulhadas aos finais de semana. Era uma forma prazerosa de fazer uma grana extra. Foi amor à primeira vista. 

Paula terminou a música sob aplausos de toda empresa. Deixou o violão no palco, desceu e foi em direção a Eduardo. Nesse momento ele já estava novamente sem óculos devido as lágrimas que lavaram todo o rosto. Ela ajoelhou-se e tirou do bolso um anel prateado - réplica da primeira aliança de compromisso deles ."Quer casar comigo?", propôs com olhos marejados também.

Ele a puxou pelas mãos e a abraçou com uma sequência de "sim's". E, de repente, preso em um abraço, sentiu o gosto de ser livre. Ser livre ao ponto de prender-se ao peito do outro talvez seja a liberdade em sua forma mais altruísta. Liberdade é diferente de independência. Liberdade é amor. E o amor estava presente ali. 



SUÉLEN EMERICK.
24 anos. Brasiliense que vê poesia no cinza do concreto. Jornalista que escreve por/com amor. Uso vírgulas e crases imaginárias pra contar histórias, e o coração pra vivê-las.


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