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EU PRECISEI PARTIR


Chaves do carro na mão, uma bolsa média pendurada em transversal no meu corpo e a carteira com dinheiro, cartões e documentos na outra mão. Jogo tudo no banco do carona e dou partida no carro.

Não sei, exatamente, para onde vou. Só sei que preciso partir porque, aqui, eu não consigo mais respirar. Preciso sair em busca de ar.

Começo a andar por vias conhecidas, mas logo tenho que ligar o GPS porque já estou na estrada rumo ao desconhecido, dirigindo sem saber onde parar. Talvez a moça do GPS me ajude a encontrar um lugar com mais oxigênio, afinal, ajudar é a função dela, certo?

Olho pelo retrovisor lateral e a estrada está vazia, o dia amanhece em completo silêncio, não fosse pelos passarinhos cantando e o vento na estrada.

Tenho um vislumbre do meu rosto no retrovisor fixado no centro do vidro frontal. Nada bom. Cabelos bagunçados, rosto ainda inchado, mesmo após algumas horas atrás do volante e nenhum sinal de sono me circundando. Não dormi noite passada e não tem feito falta, mas acabo me decidindo por entrar em uma loja de conveniência abandonada no meio da estrada, para comprar alguns energéticos, café e biscoitos.

Sigo o caminho que a moça do GPS indica. Acredito não estar assim tão perdida mais. Meus pensamentos ainda são um amontoado indecifrável, mas, aos poucos, consigo puxar um pouco de ar para os meus pulmões e compreendo o lugar para onde estou indo.

À medida que minha mente começa a clarear e o tráfego na estrada aumenta, começo a me questionar pelo tamanho da bolsa. Acho que deveria ter trazido algo maior. Sei que não posso dirigir para sempre e, mesmo que pudesse, não conseguiria. Mas não sei se vou voltar de onde vim. Provavelmente não, então deveria ter pego mais coisas. Ou não.

Tudo que eu deixei para trás talvez tenha sido de propósito, só porque me despertava memórias daquela vida sufocante. Mas, agora, depois de dirigir quase o dia todo, acho que as coisas são melhores como estão. Talvez eu ligue para alguém e avise do meu destino quando eu chegar lá. A moça do GPS já não me faz companhia e quem me guia é meu coração. “Brega”, penso comigo mesma, “Mas verdadeiro”.

Agora já é fim do dia e avisto uma estrada de cascalhos adiante. Penso em parar para dormir um pouco, descansar.... Os energéticos já estão sem efeito, os biscoitos acabando. O que me leva a pensar que se quiser ficar aqui, vou precisar comprar algumas coisas para passar a noite. Em meio a esses pensamentos, me distraio e olho pela janela lateral do carro. Freio.

Me olho no espelho e continuo a mesma bagunça. Os cabelos um caos, mas o rosto melhor. Olho novamente pela janela. O pôr do sol, a estrada de cascalho se juntando às montanhas. Algo branco lá no fundo. Poderia ser neve, mas é impossível. Resolvo sair do carro.

Finalmente encontrei o que estava procurando e não consigo acreditar. Procurava a paz todo esse tempo, em tantos empregos, prédios e pessoas, mas ela estava logo ali, no pôr do sol, me trazendo mais ar para respirar, me tirando de uma prisão imposta por tantas pessoas. Encontrei a paz no mais simples da vida e não iria mais perdê-la de vista.

Bem ali, no meio do nada, carro desligado, sem nenhum barulho, já sentada na estrada de cascalho, sem me importar se minha roupa iria sujar e destruir o banco do carro, eu descobri a paz. Descobri que ela está em coisas simples, que ela está dentro de mim. Eu crio meu caos, eu construo minha paz.

Entrei no carro só para perguntar à moça do GPS qual a cidade mais próxima. Ao obter minha resposta, esperei anoitecer e segui. Segui para o meu novo lar e, desta vez, eu não tinha dúvidas ou medos. Eu estava pronta para começar do zero. Deixando pessoas e passado para trás em busca de algo que mova a minha vida e me deixe respirar, calmamente, mas que seja por muito tempo...


GRAZIELLE VIEIRA.

Mineira que vive no Rio, escreve em vários blogs lindos, ama Friends e Taylor Swift e, apesar de ser advogada, se encontra mesmo é na escrita. Ama café, pôr do sol no inverno, gatos e odeia pagar boletos. Dona e proprietária do Vigor Frágil

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