AU REVOIR


Parti. 

Coloquei na mala apenas as boas recordações de quando era apenas um garoto que jogava pique-esconde na rua com os meus amigos, de uma época em que você não me era nem ao menos uma opção válida. Coloquei lá as horas que me dediquei à faculdade que fizeram de mim o bom profissional que sou hoje. Algumas peças de roupas antigas para me lembrar sempre que minhas origens não devem ser esquecidas, assim como algumas peças novas, que comprei recentemente, porque nenhuma revolução pós-contemporânea deve ser feita com roupas antigas e gastas pelo rotineiro soar do despertador todas as manhãs. 

Organizei todos os meus documentos, as fotografias (nas quais você não aparecia, claro) e algumas cartas antigas da época em que me aventurei a sair de casa e tinha que me corresponder com minha mãe (que Deus a tenha) sem todo aparato tecnológico que se tem hoje em dia. De você, não levo nada. Nada, nada não, né. Levo a experiência que qualquer relacionamento atribui aos seus envolvidos. No mais é só. Lembro-me de quando essa mesma mala era utilizada para dois, quando tinha que apertar pra caber tudo e subir em cima pra conseguir fechar. Tempos longínquos dos quais você abdicou há anos e eu só percebi há pouco. 

Dizem que antes tarde do que nunca e, agora, entendo mais que qualquer um o significado disso. Ah, já ia me esquecendo, deixei naquela gaveta que eu usava os presentes que você me deu. Não há porquê carregar comigo objetos que pra você nunca significaram nada, eram apenas arremedos de coisas que um relacionamento afetuoso normalmente tem. Já me desprendi totalmente deles. Minha mala também está repleta de novos objetivos, novas metas. O espaço que está sobrando nela pretendo preencher com novos sabores, cores, amores. Você não cabe mais na minha mala, como coube outrora. Isso porque você decidiu que precisava de uma mala individual pra carregar suas mentiras e ilusões, seus novos prazeres, seus novos amores. Eu disse que não levaria nada de você, né? Menti. Levo sim. 

Levo o exemplo de como não proceder num relacionamento pra que ele seja forte e aguente os rojões da vida. Levo também o título de "sobrevivente do caos" com o qual você me presenteou e que, graças a Deus, venho superando pouco a pouco. Onde estou? Longe de você. E pra sempre, amém! Peguei um avião com destino a uma nova vida, com escala nos países das novas experiências e da liberdade emocional. Eita, já ia esquecendo de te avisar: vê se me erra, ok? Troquei meu número de celular e já deixei avisado aos nossos amigos em comum que, caso pergunte por mim, digam que faleci de causas matrimoniais pra você. E vê se não chora, porque de lágrimas de crocodilo os pântanos da vida já estão cheios. 

Vai lá procurar seus novos "amigos", aqueles com os quais te vi há umas semanas em situações embaraçosas. Acredito que eles possam te consolar (ou será que nem lembram que você existe?). Caso não possam, eu passo a vez. Já fiz muito isso por você pra descobrir que todo esse esforço foi como lavar cabeça de cavalo com xampú: inútil! No mais, desejo que você seja feliz com a vida que traçou. Sério mesmo. Não é porque estou bem agora que não o desejo pra você. Enfim, adeus, passar bem, hasta la vista, beibe.


EDSON CARDOSO
Professorzim brasiliense, formado em letras, amante de (boa) música e rato de jogos online. Um cara que não é um poeta, mas que se arrisca a brincar com as palavras. Nem de longe um boêmio, tampouco um insensível nato. Gosta de ficar em casa enchendo os "pacovás" das irmãs e ouvindo o cantarolar de sua mãe. Coleciona fotos e lembranças das viagens que já fez e planeja muitas outras. Alguém que agradece a Deus diariamente o dom da vida e a graça de ter uma família com quem pode contar. 


Postar um comentário

My Instagram

Copyright © O amor é brega. Designed by OddThemes