O amor é brega. E quem não é?

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

CULPA



Ela beijou meu pescoço, mesmo quando olhou nos meus olhos e sabia que era o fim. Depois daquela noite não existiria mais “nós” ali, eu seguiria meu caminho ao longo da muralha e ela o que tinha escolhido, não haveria encontros no meio do caminho.

Estávamos conversando como aprendemos ao longo da nossa vida juntos; fomos um só por muito tempo, e agora ser dois era estranho demais. Não adiantava pedir perdão, ela nunca parou de fumar nem eu parei de ser grosseiro.

Tinha uma história em cada coisa que tínhamos em casa, por mais idiota, eram nossas lembranças que tínhamos sempre perto. Tinha ainda guardada a camiseta que ela rasgou quando tentava tirar com pressa numa tarde de domingo depois que chegamos de um churrasco. Era minha camiseta predileta, mas nem briguei. Eu tinha culpa no cartório, tinha mandado mensagens de texto meio safadas pra ela o dia inteiro . Ela guardou todos os rascunhos dos meus textos que pegava do lixo quando eu não estava olhando. O incompleto sempre foi belo e atraente aos olhos dela.

Fomos melhores amigos quando ficamos com medo de ter um bebê, e piores inimigos quando ela quis ter um bebê. Aprendi a gostar de macarrão a carbonara, ela aprendeu a beber cerveja. Não foi tudo rápido, não foi tudo intenso nem foi um romance de verão. Ela implicava com a forma que eu arrumava o cabelo, eu nunca entendi por que ela lia aqueles romances de banca meio bobos e era a maior niilista que já tinha conhecido.

Continuamos tentando não ser e um dia a gente apenas era, aconteceu sem ninguém perceber,  da mesma forma que acabou. Ninguém gritou ou ofendeu, eu acordei e procurei dentro de mim o que sentia e não estava lá, avisei a ela e ela procurou também e não tinha nada. Não podíamos continuar, então, o que mais iriamos fazer? Compramos umas cervejas, eu cozinhei algo, ela ligou pra irmã dela pra ver se conseguia alugar o velho apartamento. Assistimos a uns filmes bobos, eu fiz carinho no cabelo dela até ouvir ela pegar no sono, e ali naquele momento me senti triste. 
Acabou, dissemos tchau, ela pegou o gato e foi embora, não houve felizes para sempre.



VITORIA LORDEIRO
Sou tímida ao extremo mesmo parecendo ser alguém extrovertido, Amo MPB (coleciono discos); não assisto televisão , nunca. Escrevo sempre tentando decifrar a alma masculina. Amo café, ler e ficar vendo receitinhas na internet.  Prefiro livros a festas. Amo comidas estranhas, quanto mais esquisita e nojenta mais eu gosto. Choro vendo ursinho Pooh e sempre torci para o Frajola.  .

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