O amor é brega. E quem não é?

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

QUEM ESTÁ NA CHUVA TAMBÉM AMA OUTRA VEZ.



Está chovendo, a cidade está um caos e eu sei que não deveria escrever. Não deveria sequer ter o trabalho de visualizar se você já me respondeu. Mas fiquei aqui pensando em todos os temporais (metáforas ou não) que você já venceu por nós dois.

No seu desprendimento ao calçar as galochas e nem sempre ter capa para dois; e do seu olhar ser o suficiente para eu bater a porta e adentrar a chuva forte com você. Quantas não foram as vezes que você segurou forte a minha mão para impedir que eu escorregasse? Tantas outras fez verdadeiros malabarismos para impedir que eu caísse de cara no chão.

Está tarde, eu sei. Não tenho a menor ideia de onde você pode estar, mas quis tentar. Ainda que eu pegue um resfriado por estar aqui sentada na calçada, vale o risco. Não quero que os sentimentos que embalam nossos passos desajeitados se resfriem. Quero tentar. Baixar a guarda e descomplicar. Deixar as horas livres para nós.

Ainda que eu tenha consciência de nossa identidade, e de todas as teorias que escrevemos, quero que o “estar junto” seja motivo para perder a hora de vez em quando. Ainda que a gente possa mudar de ideia e decidir que na última hora o melhor a fazer é abortar o plano e se bastar dentro de um abraço, eu fico. Não reclamo. Não estendo a distância. Eu sento e te observo. Quero arriscar você. Quero comprovar que a gente se dá jeito. Que apesar de todas as lutas, optamos por ser a gente.

Eu sei que não sou boa com garantias, que fujo quando acho conveniente e que crio inúmeras barreiras de concreto para você não se aproximar, mas eu me venci. Você está preso. Engasgado num querer que eu não sou capaz de apagar. Então me deixa viver a gente. Eu não estou com capa, a galocha não me serve, ainda com medo das trovoadas, eu sai e vim até você. Me deixa ficar?

Eu passo o café e você deixa as nossas diferenças na sarjeta e me faz caber naquele abraço quente que dispensa cobertor. Vem sem pressa. Quem está na chuva é para se molhar e se for para recomeçar, que sejamos nós.


MARCELY PIERONI.
Escritora, administradora e chef de cozinha por escolha. Perdeu o medo de sair do lugar e desde que começou a publicar seus textos coleciona viagens onde pode abraçar seus leitores e estar mais perto daqueles que acolhem sua baguncinha. Palestra e conta histórias para crianças. É sonhadora de riso frouxo.

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