O amor é brega. E quem não é?

terça-feira, 22 de agosto de 2017

O ÚLTIMO ENCONTRO!



Estávamos sentados frente a frente. Nossos olhares cabisbaixos beiravam a timidez  que vez ou outra se intercalava com o receio. Era uma sala de espera de consultório, mas a espera que nos torturava era pior do que o desconcertante barulhinho do motor de dentista. As frases que eu ensaiava na mente se contorciam e ficavam presas, entaladas. Entendi como nunca a força da expressão “nó na garganta”. Às vezes aquele silêncio desconfortante era interrompido por um estalar de dedos. Uma antiga mania sua que eu tinha aprendido. Na verdade, uma delas.

Aquele ambiente demasiadamente branco era o plano de fundo perfeito para potencializar nossa tensão. Não tinha nenhum quadro sequer, nenhum jarro com uma flor para eu enganar meu olhar  ou ao menos desviá-lo de vez em quando. Passei então a me concentrar na minha respiração e cuidar para que ela não transparecesse o tamanho da minha inquietude.

Você também estava tomado de agonia. Era notável pela forma que você tentava disfarçar tocando sua bateria imaginária com as batidas da mão nas coxas e o acompanhar dos pés. Como se eu não te conhecesse tão bem! Já haviam passado mais de cinco anos e eu continuava com essa contraditória sensação: Você era um estranho. Um estranho que eu conhecia como ninguém.

 Senhor Alex dos Santos?

Enfim chamou a recepcionista, quebrando aquele momento de inquebrável silêncio.

 Opa! Sou eu!

Você respondeu com um misto de prontidão e espanto enquanto se levantava. Meus olhos (dessa vez não disfarçadamente) te acompanharam até onde conseguiram. E essa foi a última imagem que tive.

Muitas vezes lembro-me desse dia e novamente elaboro possíveis diálogos que poderíamos ter tido. Às vezes eu apenas acordo e acho que vou esbarrar contigo na fila do pão  a mesma fila da música do Los Hermanos que você cantava pra mim enquanto jurava ser pra sempre. Ou quem sabe, te avistar de longe na estação do metrô. O teu número continua gravado na minha agenda (a do celular e aquela física com capa do Star Wars que você me deu), seu email com username engraçado continua nos meus favoritos também. E ainda assim eu desejo o acaso. Quero te ver com as roupas cotidianas pra saber se você ainda usa aquela camisa xadrez amassada com a manga dobrada pra esconder a mancha de café.


SUÉLEN EMERICK.
24 anos. Brasiliense que vê poesia no cinza do concreto. Jornalista que escreve por/com amor. Uso vírgulas e crases imaginárias pra contar histórias, e o coração pra vivê-las.

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