O amor é brega. E quem não é?

quarta-feira, 5 de julho de 2017

PEREGRINO


                                                ❁Leia ao som de Tiê - Isqueiro Azul  

Já troquei os móveis do meu quarto de lugar umas quatro ou cinco vezes e ainda me sinto desconfortável. Já organizei os livros na prateleira por ordem alfabética, por autor, por tamanho e pelos preferidos. Mas eles ainda não parecem estar do jeito que eu queria que eles estivessem. A forma com que o ponteiro do relógio bate acaba parecendo uma melodia triste e monótona de um piano velho.

A verdade é que eu nunca consigo ficar parado num lugar só por muito tempo.

Eu sei que te contei pouco sobre como foi a minha vida. Não falei muito bem sobre como o passado do meu pai é um pouco ruim e nem sobre como o meu passado também não foi dos melhores. Preferi te poupar da minha visão de como o amor pode ser um desastre e não te contei de todas as histórias catastróficas que já aconteceram ao meu redor envolvendo ele.

Eu pulei a parte de como a vida parece ser mais dolorosa pra mim só pra não contaminar a sua visão do mundo pra que você não começasse a enxergar a vida assim e sentir a dor que ela dá.

Eu corri. 

Corri o mais longe que eu pude de você enquanto estava nas minhas longas crises de ansiedade. Mas tomei um rivotril na sua frente e você nem percebeu. Não porque não prestava atenção em mim, mas porque se tem uma coisa que eu sei fazer bem é me esconder.

O pior é que, exatamente agora, não para de chover lá fora. E eu não quero sair pra não me molhar. Eu quase nunca quero me molhar.

Ou será que não para de chover aqui dentro?

Depois de um tempo passei a tomar mais cuidado pra não me molhar, pelo menos não da cabeça aos pés. Se molhar demais sempre me parece perigoso demais. Pra mim e pro outro. Talvez até hoje você não entenda. Mas não entender caminha junto com essas loucuras profundas e perigosas. Você já parou pra pensar que eu posso ser uma loucura profunda e perigosa? 

Eu também não te contei que quase nunca consigo ficar parado em um lugar só. Sempre estar seguindo em viagem pode ser a minha dádiva ou o meu karma. Esses dias me disseram que o jeito que você sorri é triste e isso chega a doer aqui. Não era essa a bagagem que eu queria deixar pra você.

Dor nunca foi a nossa opção, você se lembra disso?

Pego meu celular com a convicção de que uma mensagem poderia consertar as coisas. Só que isso não funcionou. Eu ia te dizer pra ser forte e aguentar firme e, quem sabe, te chamar pra tomar um café.

Pra não chorar e pra tentar não se entristecer.
Pra tentar não ficar tentando entender o que aconteceu.

Eu ia te dizer pra botar em pratica aqueles planos que me contou há algumas semanas. Eu ia te dizer pra correr o risco e pra tentar não se arrepender. E pra sempre agradecer, até mesmo quando perder. Eu ia te dizer que, mesmo se nada der certo, ainda existem novas possibilidades. Eu até poderia dizer que vai passar e fingir que seria fácil superar isso.

Poderia tentar ser útil e fazer alguma coisa pra ajudar e não ficar aqui parado olhando pra você.

Talvez você pense que eu só penso em mim. Mas na verdade eu tava é pensando mais em você do que em mim. No final das contas você vai entender que sou como um peregrino. Você vai entender que preciso caminhar pra bem longe, porque é isso que me faz ser esse alguém especial: os caminhos que trilhei. 

No final das contas você vai entender que você também vai precisar caminhar mais um pouquinho, vai esbarrar com mais alguns corações e vai aprender cada vez mais com os corações. Nesse meu caminho como peregrino, descobri que amor não gosta de contratos. Alianças não são moedas de troca e que sentir o mesmo que o outro não é obrigação. 

Quem sabe um dia você também entenda que também é um peregrino.

Mas no final das nossas contas — isso mesmo, quero dizer de quando a gente parou de contar; de quando a gente parou de somar — eu aprendi que sou um peregrino que coleciona finais felizes e que o nosso tá guardado aqui.

Entre todos os finais: apenas o final feliz.

Eu sou como um peregrino. Chegou a hora de prosseguir com a jornada.
Eu sou como um peregrino, mas amo feito um humano.
E também erro feito um humano.

A minha camisa xadrez tá aí?
Você trás aqui ou eu vou buscar?

BRUNO FIGUEREDO
Poeta e Escritor. Capricorniano com ascendente em Paulo Leminski e lua em Tati Bernardi. Fã de ficção cientifica e de romances clichês. Dono do pseudônimo @sujeitoeu. Escrevo, mas escrevo sobre mim, e nem sempre sou só amor..

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