O amor é brega. E quem não é?

quinta-feira, 6 de julho de 2017

AS CARTAS DISSERAM



Me reconheci, um dia. Olhei em meus olhos, e me enxerguei de fato. Entendi que eu era a minha própria casa. Senti compaixão e amor por mim. Eu não sabia ao certo o que isso significava. Mas sentia uma calma quando me olhava, e quando eu me entendia. Fui moldando meu jeito de me expressar, e tudo que penso sobre o tudo que é vida. Comecei a notar o quão orgânico certas posturas se tornavam. As certas, as errôneas, as precipitadas. Eu via claro o que precisava de freio, por muitas vezes não consigo frear, mas se enxergar já é alguma coisa, nesse mar revolto que é lidar com a gente mesmo. 

Hoje as cartas se mostraram pra mim, e nelas apareceu que eu estou trilhando um caminho no qual estou estabelecendo limites em nome de algo que eu quero muito. Eu quero tanta coisa. Mas tanta, que não consigo precisar o que mais quero. Tanto tempo nessa terra, e às vezes entendemos tão pouco. Os questionamentos te cercam, e a gente acha que tá perdendo o controle, mas nem está. A vida, mesmo que esqueçamos, é feita para nos melhorarmos. Cada lágrima e cada desespero, sempre a mais. Sendo mais.

Bem, hoje tá frio, mas faz aquele Sol de inverno. Eu levantei, olhei para o céu e me senti tão feliz. Meu corpo reagiu à temperatura e ficou todo disposto. Olhei o celular, como aquele vício reprovável que vem com a vida tão atrelada ao digital, que começamos a levar, nem ao menos nos lembramos quando. E vi seu rosto, eu não tinha visto seus traços nunca, até duas semanas atrás. Seu sorriso meia boca, seus olhos efusivos, sua mordida na boca. De repente, uma esperança de um ciclo novo, de história nova, mas eu ainda tô querendo ver outro rosto, outros traços. 

As cartas me disseram também que eu preciso cortar o passado. Não deixar que ele me ludibrie com falsas palavras. Eu prometi fazer o que as cartas tão auspiciosamente me pediram. Saí, encontrei as amigas para um almoço, conversamos sobre o mundo, sobre o mundo de cada uma também, emendamos em um vinho, em um bar aconchegante na orla. Aquele frio já fazendo o corpo arrepiar todo. 

Ao chegar em casa, um “Oi, tudo bem?” do velho rosto. Aquele oi que vem juntamente a uma postura totalmente incoerente de quem só quer morder e assoprar, mas - mais importante - não perder. Mesmo não querendo ter. Eu olhei para a tela acesa e a acompanhei em seguida: apagar. Não posso mentir que você, todas as partes suas, me vieram À mente. É tão difícil cessar, parar, dar fim. A força do seu corpo contra o meu, as suas mãos rasgando e deixando em mil pedaços, as minhas defesas. É tudo tão inebriante.

Mas ao mesmo tempo, me lembrei do jogo, das cartas... Lembrei que é hora de não se prender mais, de se deixar levar. É hora de romper a conexão com o que já foi. Desbloqueio a tela do celular, deleto seu contato, todas as nossas conversas e fotos... Pronto! Foi!

Abro a conversa do rapaz do sorriso de meia boca sedutor, quero ele da mesma forma que ele me quer, e mais ainda: eu o mereço. Respondo a mensagem, do rosto novo e damos pontapé enfim a todo esse desenrolar que nos pertence. Que eu tenha boa sorte, que as cartas continuem precisas, que eu continue me encontrando mesmo que eu me perca, às vezes.




ALINE VALLIM
Tenho 31 anos, escritora, professora de inglês, aquariana, feminista, blogueira e problematizadora, não necessariamente nessa ordem. Quero escrever e espalhar pelo mundo minhas linhas. Viciada em café e mate. Espero loucamente que a empatia salve o mundo e possamos de verdade, nos desfazer de tudo o que nos prende. E sejamos finalmente, livres. .

0 comentários:

Postar um comentário