O amor é brega. E quem não é?

segunda-feira, 19 de junho de 2017

SONHOS DE PAPEL

Origami Boat Pendant on Antique Style Gold by JackdawBoutique, £10.00:


Carolina pegou uma das folhas de papel sulfite na mesa de seu escritório e começou a fazer um barquinho. Ou melhor, tentar. Ela nunca foi boa em fazer dobraduras, diga-se de passagem. Estava entediada, mas não por falta de afazeres, pelo contrário. Eram muitas obrigações pra cumprir naquela manhã fria de expediente, mas no momento exato, Carol não tinha foco e nem interesse em nenhuma delas. Seu pensamento estava sem rumo, se é que isso é possível. Ainda não estava acostumada a ser sua própria chefe. Advogar nunca foi seu sonho, o que era estranho de se afirmar, já que sempre foi uma menina demasiadamente sonhadora. Sonhou em ser tanta coisa e tornou-se justamente o que não queria. Irônico, né?

Quando criança, tinha vontade até de ser caixa de supermercado. Achava o máximo o barulhinho que o aparelho fazia ao abrir e a forma habilidosa como as mulheres contavam e organizavam as notas. Também já teve vontade de ser aeromoça, apesar do seu medo de altura. Já sonhou em ser professora, mas desistiu na terceira série quando conheceu Ângela, sua primeira professora de matemática. Logo no primeiro dia de aula ganhou um "Não me chame de tia, não sou irmã da sua mãe!" da docente. Sem contar que foi Ângela que apresentou pra Carolina a temida fração e a acompanhou até a oitava série - passando pelas equações de segundo grau e tudo mais. Muito antes disso já se notava claramente que Carolina era de humanas. Não só pela sua dificuldade com os números, mas também por sua sensibilidade com as causas sociais. "Por que uns tem tanto e outros tão pouco?", questionava-se o tempo todo. Suas melhores notas sempre foram em Sociologia e História.

Ser advogada não era o seu sonho, mas era sonho de seu pai. Carolina foi criada por ele depois da morte de sua mãe no parto. Seu Osmar negou sua vida em nome de Carol e trabalhou duro para garantir a melhor educação para ela. Ela o amava de maneira tão bonita e incondicional que não soube colocar na balança as suas vontades e a vontade dele. Sentia-se em débito com o pai, apesar de ter sido sempre uma boa filha. Ela queria mais, queria realizar o sonho de seu Osmar. O pacato comerciante ficou em êxtase quando Carol entrou pra faculdade pública de direito. Antes disso ele já juntava uma graninha considerável na poupança pra montar um escritório pra amada e única filha.
Agora Carol estava lá. Com um diploma na parede e seu pequeno escritório. Era uma sala com uma mini copa e banheiro. Era bonitinho até. E aos poucos Carol ia colocando "sua cara" ali. Um mini cacto perto do lavabo, um quadro com poesia na parede branca, uma aquarela na sua mesa...

Desistiu do barquinho. Amassou a folha, lançou em direção a lixeira e errou a mira. Se viu obrigada a levantar pra recolher o papel e parou em frente a janela. Nunca tinha observado a vista dali com cuidado. Como era lindo! Era uma manhã fria, o sol estava tímido entre as nuvens do jeito que Carol mais amava. Os seus olhos míopes alcançaram vários prédios ao seu redor. Carol começou a criar diálogos imaginários na sua mente, tinha essa mania desde criança e às vezes até falava sozinha sem perceber. Quantos escritórios iguais ao dela haviam apenas ali naquele quarteirão? Quantas pessoas, assim como ela, matavam todos os dias as suas possibilidades, auto sabotavam a sua criatividade pra viver analisando papéis? E se todas essas pessoas fizessem realmente o que sonhavam fazer? " Ah, mas viver de sonho não enche a barriga de ninguém". Mas por que não? Talvez se a gente acreditasse mais neles, se a gente fizesse acontecer da forma extraordinária que parece ser na nossa cabeça, tudo seria diferente. Os sonhos teriam outro valor. Mas por que raios a gente procrastina tanto os nossos sonhos, hein? Por que eles são menos prioridade que qualquer outra coisa?

O telefone tocou e interrompeu suas várias perguntas. Ufa! Ainda bem! Porque aparentemente nenhuma delas teria resposta. Era da portaria. Seu Zé avisou que tinha encomenda endereçada a Carol. Ela desceu as pressas. Sempre amou receber qualquer coisa pelos correios. Ela era dessas que burlava a tecnologia e até hoje mandava cartas manuscritas com todo capricho do mundo, sabe? Mas dessa vez a encomenda veio em um pacote maior, do tamanho de uma caixa de sapatos. Ansiosa como era, rasgou logo a embalagem, sem pensar duas vezes. Era uma espécie de "cortina" feita com várias dobraduras de tsurus e um bilhete cuidadosamente colocado em um envelope rústico bem bonito. Carol abriu o cartão, cheia de curiosidade como sempre, ainda mais diante de um presente totalmente inesperado.

"Filha, sei que você nunca foi muito boa em dobraduras e deve estar se perguntando qual o motivo deu ter te enviado esse presente. Conheço sua curiosidade como ninguém, mocinha. Acredite, tem um propósito. Lembro-me bem quando tentei te ensinar a fazer esses tsurus. Você ainda era menina e passamos a tarde tentando em algum momento de suas férias escolares. Você achou lindo quando te contei o significado dessa ave japonesa, e queria porque queria aprender a fazer. Te ensinei pacientemente, mas você acabou desistindo porque achava que não levava jeito pra coisa. Eu insisti, disse que poderíamos tentar quantas vezes você quisesse até conseguir, mas você ficou irritada e amassou a última folha.

Sabe filha, eu queria te pedir hoje pra não fazer a mesma coisa com seus sonhos. Sei que você já é crescidinha, mas se ainda aceitar um conselho do seu velho pai, eu diria: Não jogue fora seus sonhos, não os abandone. Não dá pra descartar quem você é, e eu tenho muito orgulho da minha garotinha. Até suas frustrações são lindas, sabia? Porque elas fazem parte de você! Quero te pedir perdão, minha menina. Perdão por ter colocado meus sonhos na frente dos seus. Não sei se você lembra o significado dos tsurus, mas eles representam justamente a longevidade, a boa sorte, saúde e fortuna.

Por isso preparei essa cortina cheia deles pra ti, porque é isso que desejo pra sua vida aonde você estiver, independente do caminho que você escolha, mesmo que ele seja distante do que eu sonhei pra você. Você é maior que essas quatro paredes, o mundo é pequeno pra você. Voe! Vá ser feliz, meu amor. E não olhe pra trás, seus sonhos estão lá na frente, esperando por você. Beijo, do seu principal incentivador. Com todo amor, papai."

Carol borrou as últimas linhas do bilhete com duas indecisas lágrimas. Elas não sabiam se caiam de felicidade, de emoção, de surpresa... era um misto bem louco de sentimentos. Carolina sabia que aquela tinha sido uma grande prova de amor de Osmar - como se ele ainda precisasse provar alguma coisa! Retirou a cortina de tsurus, e colocou como divisória de ambiente, entre sua sala e a copa. Ali o vento batia suavemente e os tsurus pareciam voar. Deixou a brisa acariciar seu rosto e sorriu de olhos fechados como quem sonha. Mas agora, era o momento de ficar com eles bem abertos, observar seus horizontes e não suas barreiras. Seu pai, mais uma vez, havia ensinado uma grande lição: nossos sonhos não são de papel, e mesmo se fossem, toda vez que a gente tentasse descartá-los, erraríamos a mira. O lugar deles não é na nossa lixeira de emoções.

SUÉLEN EMERICK.
24 anos. Brasiliense que vê poesia no cinza do concreto. Jornalista que escreve por/com amor. Uso vírgulas e crases imaginárias pra contar histórias, e o coração pra vivê-las.

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