O amor é brega. E quem não é?

terça-feira, 20 de junho de 2017

QUERO FICAR NO TEU CORPO FEITO TATUAGEM.



Oi... É... Tanto tempo que não te escrevo, acho que perdi o jeito. Mas ainda há tanto a dizer que já não suportava mais o silêncio que gritava, implorando que eu te rabiscasse mais algumas cartas.

Sabe, semana passada fui até um despachante fazer um orçamento. Sim, eu tomei coragem de fazer aquela viagem, mesmo não vendo muito sentido em conhecer o mundo sem você. Agora estou aqui, preenchendo um formulário e passei a última meia hora olhando para o campo que me pede teu nome, data de nascimento e outras informações que há tempos não escrevo.

Cônjuge. Essa palavra sempre me pareceu tão séria pra te descrever. Logo você que de séria nunca teve nem a pontinha do dedo do pé. Ainda posso ouvir tuas gargalhadas, teu "olá" sempre sorridente, teu "boa noite" sempre esperançoso. A vontade é rabiscar a seriedade e escrever por cima: amor. Porque é isso que você é pra mim, mas o mundo lá fora me cobra formalidade e inúmeras burocracias acabam ficando por cima do sentir.

Voltei caminhando pra casa naquele dia. Quis pisar nas mesmas calçadas que outrora caminhamos lado a lado, de mão e almas dadas. Passei em frente a praça onde nos conhecemos e parei no mesmo café onde íamos depois dos expedientes cansativos. Dispensei alguns bons minutos na livraria onde comprei teu primeiro presente. Listei, mentalmente, todos os livros que poderia levar pra te ver sorrir novamente, mas me contive e continuei meu caminho.

Sabe, continuar é sempre difícil quando há tanto de você nos meus passos. Ainda tem você em mim, muito mais do que eu poderia mensurar. Ainda tem tua voz na secretária eletrônica, mesmo que eu nunca tenha tido coragem de ouvi-la novamente, depois que você se foi. Ainda tem teu nome cravado na minha pele, naquela tatuagem que fiz depois da despedida de solteiro, e que você só descobriu na lua-de-mel. "Endoidou? Isso aí é pra sempre!", você disse. E eu gargalhei ao te ver, pela primeira vez, nervosa.

Voltando pra casa hoje parei naquela floricultura onde comprei o primeiro buquê da minha vida, no dia em que pedi a tua mão. Lírios brancos sempre foram teus prediletos. "Representam matrimônio e maternidade, sabiam?", você sempre dizia. E agora estou aqui, escrevendo esta carta pra entregar junto com as flores, na esperança de que, onde quer que você esteja, minhas palavras te alcancem, já que meus braços não podem mais te envolver.

Finalizo te fazendo uma confissão e, por favor, me perdoe pela omissão. Não te contei, mas todos os dias quando me deparo com o espelho, vejo a mesma tatuagem e respondo baixinho o que nunca tive chance de te dizer: "Nós também seremos pra sempre, meu amor."

Onde quer que esteja, olhe por mim. Te amo.


GISELLE F..
É uma pernambucana por nascimento e paulista por consequência da vida. Escritora, blogueira e brinca de ser poeta de vez em quando. É a típica mulher-eternamente-menina que, apesar de ter cicatrizes profundas, nunca deixou que seu medo lhe impedisse de se aventurar mais uma vez. Quando sente demais, transborda em palavras.

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