O amor é brega. E quem não é?

segunda-feira, 19 de junho de 2017

A TERCEIRA PESSOA DE UMA RELAÇÃO AFETIVA



Ela resolveu casar. Acordou num dia cinzento qualquer, abriu a janela e debruçou-se sobre a grade que sempre separou seus sonhos da realidade e descobriu que seus 35 anos pediam um complemento. No fundo nem era por vontade própria a decisão, mas seus pensamentos viajaram no questionamento de uma “estranha tia casada”, que dias atrás houvera interceptado uma conversa no churrasco familiar dizendo não entender o motivo de pessoas bem resolvidas social e financeiramente não conseguir um “bom partido” para alterar seus estados civis.

Sem contar a desconfiança que vez ou outra pairava sobre sua sanidade mental (talvez por seus relacionamentos afetivos passados durarem nada menos que curtos instantes), não suportando ministrar aulas de maturidade aos babacas que nem sequer eram formados em respeito.

Ela bem que tentou disfarçar o desconforto que o tema lhe causava, sorriu de forma ácida, mesmo sem concordar que em pleno século XXI o retrocesso familiar estabelecesse regras. Todo aquele papo de tia conservadora foi pior que carregar uma mochila Palestina com conteúdo Sírio e a fez refletir o quanto realmente valiam todos os esforços imprimidos até ali, naquela trajetória que parecia incompleta. Estudos intermináveis, incerteza de sucesso profissional, noites que poderiam ser perfeitas se não fossem compartilhadas com homens imperfeitos e o tédio daquelas ressacas que lhe acordavam sem ao menos desejar bom dia vieram à tona.

No entanto, estranhamente ela se sentia tão livre, mesmo que a grade empoeirada daquela janela transparecesse – aos olhos da sociedade – limitar sua liberdade. Ela tinha convicção de não querer alguém apenas para satisfazer o ímpeto social, dividir contas e seguir o rito que, sei lá quem, definiu como desfecho normal – casar, ter filhos e, se sobrar tempo, ser feliz. Ela queria ser dona de si, não propriedade de alguém.

Naquele dia ela se vestiu de branco e decidiu que substituiria o tradicional par de alianças por um único anel que simbolizasse seu amor próprio. Foi exatamente o que ela fez, assumiu compromisso com ela mesma e jurou – diante de um espelho – que o amor-próprio seria um exercício diário, cujo resultado seria demonstrar ao mundo que ninguém poderia dar a ela presente mais valioso.

Ter alguém ao seu lado poderia ser a consequência de um descuido qualquer porque ela sempre colheu os melhores frutos enquanto esteve distraída. Até aquele instante as obrigações da vida só haviam lhe servido para cumprir com questões previsíveis, tais como, dividas financeiras e compromissos com hora marcada.

A tia, sociedade, amigos e etc., poderiam pensar e expressar aquilo que julgasse adequado, mas ela não iria abrir mão de si por nada. Depois que ela disse sim a liberdade a única forma de renuncia ao contexto atual seria encontrar alguém disposto a dividir ela com ela mesma, no mais intenso ménage à trois.


DIEGO AUGUSTO.
Mineiro de Belo Horizonte, engenheiro de produção por profissão e escritor por paixão. Amante da vida e das pessoas, acredita que os sonhos embalam a vida e o amor propulsiona os sonhos. Odeia o mais ou menos e pessoas que querem progredir cedo acordando tarde. Apreciador de cervejas e conselheiro de temas que pautam as mesas de bares.

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