O amor é brega. E quem não é?

terça-feira, 9 de maio de 2017

SEGREDOS DE PORTA-RETRATO

(ouça enquanto lê: Ana Vilela - Trem Bala)

Laura tirou os sapatos de salto médio - para ela pareciam os mais altos do mundo- e se jogou no sofá. Ignorou a bagunça da sua sala e principalmente a poeira da estante. Ainda estava se adaptando à nova rotina de morar sozinha. O porta-retrato que guardava a imagem de seu pai, estava levemente coberto por uma camada de pó, mas ainda assim dava pra notar que a pele branca de seu Álvaro já havia ficado amarelada naquela fotografia.

Deitada como estava, Laura conseguia perceber como os seus olhos pareciam com os dele. Aliás todos os traços da face do pai remetia aos dela. De sua mãe havia herdado apenas o nome (e dizem que a voz também parecia). Sentiu algo próximo de saudade. Nunca foi apegada ao pai, e não era agora por ele ter falecido, que iria dizer coisas belas e fantasiosas da relação. Mas a semelhança era inegável e isso a intrigava.

Laura o amava, ou pelo menos se convencia disso, já que afirmar não amar quem a gerou é socialmente condenável. Mas o que causava mais dor no seu coração, era que ela não o admirava. Não foi por falta de tentativa, mas seu Álvaro tinha características que a incomodavam muito. Ele era o típico malandro, sabe? Vivia contando mentiras no trabalho e até na família. Nada de muito prejudicial, mas era um hábito feio do pai. A maioria das vezes ele mentia sem necessidade alguma e Laura não suportava isso. Quando alguém dizia : " Você está a cara do seu Álvaro!", ela não se orgulhava nenhum pouco. E pelo fato de se tratar do seu pai, essa sensação a deixava culpada. Afinal, ele deveria ser o homem que ela mais admirou em vida, né? Não é esse o ciclo natural das coisas?

Laura levantou-se. As lembranças a inquietaram de tal forma que impediram seu descanso. Correu para o chuveiro e tomou um banho extremamente gelado. Lavou os cabelos negros e deixou a água escorrer por cada pedacinho de suas costas. Aquele choque térmico a fazia se sentir viva. Poderia ficar ali por horas, mas a sua consciência ecologicamente correta não deixou ( e a responsabilidade com as contas também). Saiu, vestiu o roupão atoalhado enquanto espalhava um hidratante de frutas vermelhas na pele -tão lentamente que parecia cena de comercial.

Penteou os cabelos devagar e notou os vários fios presos na escova. Lembrou-se imediatamente de um versículo bíblico que sua tia disse no enterro de Álvaro: "Nenhum fio de cabelo cai sem a permissão do Senhor". A sua memória turva em relação aquele dia, não a permitiu que gravasse a referência. Mas a mensagem veio como um insight. Era exatamente isso! Todos os seus questionamentos eram vãos. Seu Álvaro se foi e Laura não podia mudar os fatos. Apesar de tudo, de todas as lacunas deixadas por ele, ela não estava só. Alguém podia suprir todas as suas dores, e esse alguém se preocupava até com os seus fios de cabelo! Como alguém tão grandioso poderia ser detalhista assim? Talvez fosse justamente esse cuidado e amor que ela precisava experimentar pra voltar a sorrir.

Naquele instante aprendeu meio sem querer o que era a tal da fé, e podia ser bem mais simples do que imaginou a vida inteira. Colocou seu pijama de algodão com estampa fofinha, um par de meias coloridas e deitou na cama por fazer. Sentiu todo o corpo se relaxando aos poucos, e o melhor: agora até a alma parecia mais confortável dentro dele. Tudo estava em harmonia consigo. A bagunça do apartamento? Ah, parece que essa iria ficar pra depois de umas boas horas de sono ininterrupto.



SUÉLEN EMERICK.
24 anos. Brasiliense que vê poesia no cinza do concreto. Jornalista que escreve por/com amor. Uso vírgulas e crases imaginárias pra contar histórias, e o coração pra vivê-las.

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