O amor é brega. E quem não é?

segunda-feira, 29 de maio de 2017

REALIDADE NÃO DÁ LIKE.


Somos os filhos da pressa, da pressão, da falta de empatia, da vida que deixa de ser vivida na correria ou na falsa alegria.

Um like aqui, outro ali e talvez o dia não seja tão sem graça assim. Bate uma foto do que está acontecendo, compartilha, conta para o mundo o que você está fazendo, mesmo que isso te distancie do prazer de fazer. Bota a maquiagem no rosto, engole o comprimido e também o choro. Veste aquele sorriso planejado para que ninguém cutuque as tuas feridas nem critique as tuas falhas.

Tá ouvindo esse barulho? É o rádio falando sobre as tais doenças de uma sociedade ansiosa e deprimida. Logo vem alguém comentar que muitas delas são apenas frescura de gente que só quer chamar a atenção, mesmo que tenha que cortar a própria carne e expor o quanto ela já sangrava antes do corte. É, eu sei que tá difícil lidar com toda essa crise aí dentro (que aumenta ainda mais de tamanho com a crise lá de fora), mas dizem que a gente não pode desistir nem desanimar. Mesmo quando a gente parece não ter nenhum estímulo ou resquício de fé para fazer isso.

Você tá aí sem fazer nada igual àqueles políticos cretinos que estão no poder? Levanta já da cama, acompanha a multidão, estuda qualquer curso e vai procurar um emprego. Vista uma roupa social, coloca um salto e fale sem gaguejar. Não é hora de deixar o desespero do desemprego vir à tona. Ninguém pode perceber as suas necessidades e anseios neste mundo de perfeição, lembra? Talvez assim você consiga se destacar entre os três mil candidatos que vão disputar a vaga com você. O qu? Você não gostou do trabalho que te ofereceram? Aceite-o mesmo assim, você precisa ganhar dinheiro, precisa sobreviver. Viver a gente pensa depois – se sobrar disposição depois de subir a ladeira e se sobrar um trocado na tua carteira.

Agora vai lá e afoga essa tristeza no copo cheio de cerveja. Pede também uma porção de batatas e um generoso hambúrguer. Faz um clique, mas não se esqueça de malhar amanhã para perder estas calorias. Você não vai querer ouvir ninguém te chamando de gorda e nem vai querer precisar de mais comprimidos (dessa vez para emagrecer), né?

Oi? Você está ligando para relatar mais uma noite de uma mente inquieta e preocupada que te causa insônia? Então aproveita que já está com o celular e procura por aquela pessoa que pensa de forma diferente da sua e que te deixa irritada toda vez que defende a opinião dela. Deixa essa coisa de tolerância de lado, o importante é achar que a sua razão é a única verdade. Mesmo que isso te custe a infelicidade alheia ou a sua.

É, vivemos em um mundo de ritmos e cobranças aceleradas, mas de compreensão e sensibilidade lenta. Pouco paramos para ouvir o que sentimos, para pensar no que queremos e no que realmente nos move. Ouvimos menos ainda o que o outro tem a nos dizer. Colocamos um band-aid em nossas dores, disfarçamos a olheira com maquiagem e encolhemos o coração e a barriga naquela cinta. Fechamos os olhos para o que incomoda, para o que machuca. E também fechamos os olhos para quem chora ao nosso lado.

Quanto tempo mais precisaremos perder para perceber o que é essencial? Quantas mágoas teremos que enfrentar até que a gente se dê conta de que o nosso coração também tem o seu limite? Quantos desafetos teremos que criar para aprendermos a respeitar as diferenças? Com quantas cobranças (nossas ou não) teremos que lidar para prestarmos atenção no que faz parte da gente e, possivelmente, da nossa verdadeira missão?

Quanto nos resta para viver e sermos feliz?

Para alguns, restam apenas uns segundos. Para outros, talvez, restem dias, meses, anos. Mas para todos já passou da hora de despertar a compaixão, a empatia e o amor (por nós, pelo próximo e pela vida)!

BEATRIZ ZANZINI.
Jornalista, escritora e filósofa de bar. Escrevo em uma tentativa de me descobrir e também de desvendar o mundo. E então percebi que, ao compartilhar minhas ideias e sentimentos, às vezes consigo ajudar não só a mim mesma, mas também outras pessoas que se identificam com as minhas vivências. Isso me traz uma inspiração ainda maior a cada dia.

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