O amor é brega. E quem não é?

terça-feira, 30 de maio de 2017

QUERO ME ENXERGAR NO TEU OLHAR.


Já são onze horas. O corpo já se rendeu ao cansaço do dia estendido por sorrisos e problemas de última hora. Tá pedindo abrigo. Cai na cama e se concentra na pintura do teto. Escreve uma agenda imaginária e se prepara para embalar o sono. Mas não cede. Os pensamentos vão pra longe. Brincam de desenrolar respostas e te pedem por perto.

Alcanço o celular e ensaio por alguns segundos se devo ou não romper o silêncio e a barreira imaginária que criei pra separar nós dois. Tô a fim de brincar com a sorte, escrevo o "boa noite" habitual e me jogo de lado. Dois minutos depois você responde e estica o clichê. É provocação escrachada e você sabe que eu gosto.

Tenho feito dessas conversas de fim de noite um atalho pra ser quem eu sou. Não dá tempo de roteirizar nada. Por mais que eu pense e suponha, acabo deixando a prosa fluir e já penso no seu corpo acomodado ao lado do meu, aquecendo a vontade e despedindo por completo todos os receios bobos que a rotina deixa impregnar na pele. 

Sua forma de conduzir a bagunça que faço me põe pra fora do eixo, é vista privilegiada de quem escala o vale mais alto e se lambuza com as preciosidades que a vida desenha quando o resto do mundo só sabe se ocupar com desculpas e questionamentos. Você sabe que não sei parar, que quanto maior o desafio, maiores são as nuances que se espalham de nós.

Eu torço pra vergonha pisar no freio, pra que as palavras não dancem de forma singular a ponto de saírem despretensiosamente da boca e entregarem pra você o que tá escondido aqui dentro, e não tô falando de querer bem ou convites indecentes que envolvem suas mãos enroscadas em mim, estou falando de segredar a alma. De despir o corpo de todos os preconceitos e assumir na calada da noite que tá tudo revirado do avesso e que isso já tem sido suficiente pra eu me sentir em paz.

Não quero que tenha controle sobre mim. Não quero que aprenda a decorar as frases soltas que me livram das mais variadas saias justas. Só queria que coubesse aqui. Que se desafiasse a ir além da superfície. Que se ausentasse o suficiente pra me fazer ver que vou sentir falta do seu cheiro e da gargalhada irônica que você dá quando quando se sente no controle da situação. Mesmo que você saiba que bom papo e vinho barato me fazem esquecer que já tive juízo e pudores e me façam cair no seu abraço sem questionar se tá certo ou errado.

Eu quero esquecer as fórmulas. Os enredos malucos e todos os casos furados que só arrancaram a roupa e nunca fizeram valer o tempo. Quero tá do seu lado num domingo preguiçoso pra comprovar a teoria de que fazer nada em boa companhia é a melhor coisa da vida. Essa bobagem clichê de quem ainda almeja se encontrar e se perder no mesmo abraço, no mesmo cheiro, na mesma cama. Essa vontade de dividir os sonhos insanos com alguém mais sem vergonha ainda, a ponto de só fazer as malas e embarcar.

Não tô falando de romances televisivos, repertório pronto. Quero ser provocada quarenta horas dia, porque preciso do arrepio percorrendo a espinha. Preciso vasculhar saídas pra fugir, só pra depois admitir que por mais livre que eu seja, é no seu olhar que eu quero me enxergar.

MARCELY PIERONI.
Escritora, administradora e chef de cozinha por escolha. Perdeu o medo de sair do lugar e desde que começou a publicar seus textos coleciona viagens onde pode abraçar seus leitores e estar mais perto daqueles que acolhem sua baguncinha. Palestra e conta histórias para crianças. É sonhadora de riso frouxo.

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