O amor é brega. E quem não é?

sexta-feira, 12 de maio de 2017

O TEMPERO DA SAUDADE É SAL MARINHO


Sinto inveja da areia de Copacabana, da Princesinha do Mar. Não dela toda em sua extensão, óbvio. Mal percebo aquela que, de tão fofa, você afunda os pés e lhe ocupa os espaços que sobram entre seus dedos, em uma manhã fagueira e quente de folga, bem no meio da semana, em pleno Rio de Janeiro, a qual te faz procurar a sombra da barraca ou correr em direção ao mar gelado.

Sinto inveja somente dos poucos, daqueles específicos que sou capaz de reconhecer e destacá-los nessa multidão de grãos. Os que seguem contigo, sem percebê-los, logo após deixar a praia e pegar o coletivo de volta para a sua casa, a qual nem faço ideia de onde fica.

Danados grãos teimosos, desobedecem às sacudidas do caminho, sobrevivem mesmo a chegada em casa, em frente à porta de entrada, onde você bate com a canga contra seus pés antes de entrar para não sujar nada lá dentro. Todavia, ainda assim, permanecem resistentes, logo acima do tornozelo. Grande parte só sairá com o banho. Destes que vão para o ralo, tenho é pena.

Pronto, se quer mesmo saber, é do trilho de areia, formado da porta de casa até o banheiro, acomodado na sala de estar que nunca visitei, mas sei, de que tenho inveja. Daquele grão astuto que rolou e se escondeu no rodapé da parede da sala que nem mesmo o aspirador encontrou.

Eu sinto inveja dele, pois me sinto como um dos primeiros desprivilegiados que sumiram na primeira onda repentina que resvalou-se em suas costas enquanto você se lavava pra pegar o ônibus que a levaria de volta pra casa, onde bateu os pés e entrou no chuveiro, deixando molhar um pouco o chão fora do box, o que nunca me contou mas presumo.

Parece agora que tem um mar de distância entre a gente depois de sua partida, tanto mar que me afogo em saudade. Mas, não se lamente por mim, a vida é assim mesmo, uma solidão compartilhada. Afinal de contas, alguém já parou pra contar quantos grãos de areia há no fundo do mar?

CAIO LIMA
Eu sou tudo aquilo que deixei pra depois e que nunca fiz por preguiça. Tal como as abas que se acumulam na página de pesquisa do meu computador sobre as curiosidades que nunca vou terminar de ler. Sou uma sobrecarga de vontade contrariada, uma ansiedade passageira. Um desvio da rota, um tropeço pelo caminho. As versões que inventei de personagens folclóricos, um filme inteiro de Woody Allen. Sou um atalho impaciente pro jeito mais fácil. Chato pra cacete, mas tem quem ature e diga o contrário. Prazer, eu sou o que to podendo ser.

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