O amor é brega. E quem não é?

quinta-feira, 25 de maio de 2017

GRITO DE RAPINA


Às vezes tenho a impressão de que estou fazendo as coisas no tempo errado: indo levar meu sobrinho pra escola no tempo errado; indo buscá-lo no tempo errado; escrevendo em horários errados; dormindo no tempo errado; acordando no tempo errado; vivendo no tempo e do jeito errado; trabalhando no lugar errado; sonhando do jeito errado; ficando com os pés no chão no tempo errado; amando errado.

No fim das contas, eu acabo procurando refúgio nas pessoas, como se, da boca delas, Buda fosse pular fazendo uma acrobacia, ficaria bem na minha frente e diria “olha, garoto, você ta fazendo tudo errado” e depois me entregaria um pergaminho com uma lista extensa de coisas que venho fazendo de forma errada, seguidas de suas respectivas soluções.

Eu espero dos outros a Clarice Lispector. Espero mesmo. Espero que alguém apareça e que, na verdade, seja a sua reencarnação e comece a recitar um daqueles textos extremamente emotivos e sem sentido, mas que eu entenderia. Então, só aí, me sentiria especial e começaria a acreditar que poderia continuar escrevendo textos sem sentido, que um dia eles fariam sucesso e manteria esse pensamento egoísta em forma de ego só pra acreditar um pouquinho mais em mim.

Não parece, mas eu fico procurando Deus. Como se ele fosse surgir só pra mim, como a entidade cósmica maravilhosa que é, e eu me sentiria abraçado por ele e também me sentiria amado. Então eu começaria a amar como ele e começaria a fazer os outros amarem como ele. E só aí eu acreditaria que o amor é a única solução.

Eu sempre acabo caindo nessa coisa de questionar tudo, então me vem à cabeça o porquê escrever. Entendo que às vezes tudo que eu sei fazer é gritar. Gritar em palavras. Às vezes, tudo que sei fazer é chorar. Então vou lá e choro em palavras.

Não, eu não escrevo pra impressionar. Eu escrevo pra me libertar. Pra alguém me ouvir ou pra alguém me salvar. Eu escrevo pra não explodir, pra não surtar. Escrevo porque às vezes não posso gritar e porque, outras vezes, sinto vontade de me matar. Escrevo pra não agonizar e pra mágoa passar. Escrevo pra eternizar. Eu escrevo pra existir. Escrevo pra sentir.

Escrevo porque eu queria sentir um amor daqueles que te faz rir sozinho enquanto anda na rua e que, enquanto você ri, as pessoas que passam por você também sorriem e se sintam felizes pela sua felicidade. Queria sentir daqueles amores que chegam de mansinho, sem pressa. Que se acomoda em cada cômodo do seu corpo, até não querer sair mais. Mas eu não queria um amor cômodo. Eu escrevo porque queria sentir um daqueles amores de novela, que os mocinhos não desistem um do outro fácil e que, se não vivem felizes para sempre, vivem felizes pelo tempo que for necessário.

Queria sentir um amor que me fizesse escrever um texto feliz. Que, depois de escrevê-lo, eu ficasse mais feliz ainda e, depois disso, enviaria por e-mail para uns três amigos e quando eles o lessem, também sentiriam felicidade a ponto de ligar pra várias pessoas que amam, só pra dizer o quanto eles as amam e contar o quão felizes estão. E que esse texto feliz chegasse à um enfermeiro triste, responsável por uma ala desolada de um hospital. Que ele pudesse ler esse texto para seus pacientes até que os mesmos se esquecessem de suas fases terminais. Que eles ficassem tão alegres que repassariam a leitura para seus parentes tristes, passando também felicidade imediata. E que esse texto alegre conhecesse o mundo e o tornasse mais... Feliz.

Queria sentir um amor acolhedor e, ao mesmo tempo, ofegante. Daqueles que fazem sentir como se eu fosse infinito. Queria sentir um amor que não me fizesse desistir dos outros amores. Ou um daqueles amores de comédia romântica, onde os protagonistas não são as pessoas mais lindas e, muito menos, perfeitas do mundo, mas estão ali: sentindo um amor real.

Por isso eu escrevo.

Escrevo porque preciso. Escrevo porque sou abismo. Escrevo pra sentir e pra fazer alguém sentir. Às vezes, escrevo pra alguém me notar. Eu escrevo. Escrevo sobre mim. Mas nem sempre sou só amor. Às vezes, você pode achar que um texto meu é sobre amor. Mas na verdade é mais um dos meus gritos de rapina. Às vezes, é só mais um dos meus gritos de socorro.


BRUNO FIGUEREDO
Poeta e Escritor. Capricorniano com ascendente em Paulo Leminski e lua em Tati Bernardi. Fã de ficção cientifica e de romances clichês. Dono do pseudônimo @sujeitoeu. Escrevo, mas escrevo sobre mim, e nem sempre sou só amor..

4 comentários:

  1. Talvez esse seja o fardo de quem possui muita coisa no peito, essa necessidade de se livrar dos excessos, não diria que são excessos ruins, mas continuam sendo excessos. Acontece que aparentemente ninguém vai conseguir demonstrar, sentir e se importar tanto como nós mesmos e isso traz frustração por que de uma forma ou de outra a gente precisa por pra fora os nossos excessos. Caso contrário a gente se afoga em nós mesmos.

    Sem palavras o seu texto! Como sempre arrasando. haha Pisa menos Bruno!!! kkkkk

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  2. Sem palavras para descrever como amei ler, cada palavra..

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  3. Eu amo seus textos e amo você. Você decifra tudo com suas palavras, de verdade. Eu amo muito você é sou grata por você existir e ser meu amigo❤❤❤ to com saudades

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