O amor é brega. E quem não é?

quinta-feira, 25 de maio de 2017

EI, AINDA É INVERNO DESDE QUE VOCÊ FOI



Você entrou pela porta lateral como se não quisesse ser visto, mas eu ouvi seus passos silenciosos. O barulho do zíper do seu casaco se fechando parecia gritar pelo meu nome. Suas botas ensopadas me intimidaram, mas pareciam não te intimidar. Então você pede um café quente e quase não coloca açúcar — como se já estivesse acostumado com o sabor amargo da vida —. Reclama do tempo chuvoso só que com um sorriso no rosto, o que destaca a sua covinha no meio da barba cheia. Aliás, lembro-me bem de esquentar meu rosto nela, em dias frios como hoje. Lembro também o quanto te irritava a mania de colocar minhas mãos geladas dentro do bolso dessa mesma jaqueta, dando um choque térmico em suas mãos já tão quentinhas.

Vendo você aí, batucando com o pé no chão no ritmo da música que toca na rádio, me lembro das inúmeras vezes que você me salvou! Das vezes em que você me deu a mão quando eu precisei (e a apertou tão forte, que meu coração permitiu sentir-se seguro). Logo eu, tão resistente, tão cheia de mim... Me entreguei. Confiei naquele seu sorriso de canto. E quem não iria confiar na pessoa que tem o abraço mais gostoso do mundo? Duvido se alguém resistiria sentir teu perfume tão de perto e não suspirar.

Você me fez acreditar que o amor merecia uma outra chance e que já não era tarde demais. Teus olhos lindos e amendoados, não eram sinceros, mas mentiam suficientemente bem para me envolver. E eu? Bem, eu não resisti. De repente já me sentia hipnotizada pelo teu belo par de olhos. E que olhos! Eles poderiam ser janelas da alma, mas diferente de mim, você não se abria facilmente. Digo o quanto senti a sua falta e confesso que eu sempre te encontrava em algumas letras do Caetano e em algumas notas daquela bossa que você mesmo me apresentou.

Te conto como passei a odiar dias frios, mas escondo que durmo com aquele mesmo cobertor que usamos no acampamento. Você me devolve com um sorriso e diz que também se lembra de mim ao entardecer e que hoje mesmo, no caminho da cafeteria, lembrou de mim enquanto o rapaz declamava um poema na praça. Mas sinto que as coisas mudaram. Sinto que alguma coisa aí andou. É, andou... Andou como alguém que só quer ir pra frente e nem pensa em voltar. Andou como um trem bala que atravessa grandes metrópoles e nunca mais volta a ser o mesmo — até pode ser a mesma carcaça, mas volta com bagagem e com algumas pichações sobre um tal de desamor.
Bruno Figueiredo e Suélen Emerick

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