O amor é brega. E quem não é?

segunda-feira, 3 de abril de 2017

O AMOR É FEITO DE QUÊ?





Minhas mãos, quase tão tímidas e embaraçadas quanto eu, se escondem nos bolsos do meu jeans. Eu queria caber neles também. Não há nenhum andar heroico em mim. Os ombros vão abaixo da linha do trapézio, curvados. No caminho, presto atenção em tudo, especialmente nas frutas caídas e apodrecidas que os passarinhos, de barriga cheia, desperdiçaram. Minha distração é chutá-las longe, meus pensamentos rolam com elas. Por todos os cantos, espalham-se possibilidades perdidas, palavras não ditas e pedaços de goiaba.

O amor talvez seja um fruto doce, aquele no ramo mais alto de uma goiabeira, que os nossos braços não alcançam por mais que a gente cresça. Aliás, viver um amor só me parece possível se voltarmos a ser crianças e, como naqueles tempos de pureza genuína, escalarmos a árvore sem medo da altura. Ou então, é preciso passar a ser passarinho. Os frutos no alto são um regalo para eles. Se aprendem a ser livres primeiro e depois sabem voar, não há quem possa competir com eles pelos frutos do topo.

Ocorre que o excesso sempre leva ao pecado. O passarinho só belisca um pedacinho do amor, depois o fruto cai apodrecido e eu chuto, em seguida ele já parte para bicar o próximo. Amor consumido vorazmente é desperdício. É preciso saber desfrutar de cada mordida, sem pensar se a fruta do outro galho é melhor. Os passarinhos, percebam, sabem assobiar belos cantos, mas desconhecem como amar de verdade.

A criança, por mera ingenuidade, também peca com sua pressa em descobrir o mundo. A falta de experiência, que lhe é característica, a seduz fazendo com que pegue o fruto ainda “devez”, antes de estar pronto de fato para ser colhido. O que deveria ser doce, amarga sua boca e logo é jogado fora. Depois eu os chuto.

Vejam só, os únicos que participam dessa fartança não conseguem tirar das frutas seu sabor sem se lambuzarem. Eu bem sei apontar os defeitos tanto do pássaro, quanto do menino. Mas não compreendo a lição. Talvez eu deva ser um jovem-pássaro. Melhor, talvez um pássaro-menino. Com certeza, a soma dos erros de cada um deles.

De uma forma ou de outra, busco colher esses frutos, mas, definitivamente, também não tiro deles melhor proveito. Além de chutá-los pela rua, vejo o quão longe consigo lançá-los. Mais um amor acabado, outro fruto desperdiçado. Um punhado do que caberia numa bela história de nós dois preparando uma deliciosa receita com goiabada.


CAIO LIMA
Eu sou tudo aquilo que deixei pra depois e que nunca fiz por preguiça. Tal como as abas que se acumulam na página de pesquisa do meu computador sobre as curiosidades que nunca vou terminar de ler. Sou uma sobrecarga de vontade contrariada, uma ansiedade passageira. Um desvio da rota, um tropeço pelo caminho. As versões que inventei de personagens folclóricos, um filme inteiro de Woody Allen. Sou um atalho impaciente pro jeito mais fácil. Chato pra cacete, mas tem quem ature e diga o contrário. Prazer, eu sou o que to podendo ser.

1 comentários:

  1. Estou encantada com a leveza de suas descrições. Que texto belíssimo! Parabéns, Caio. E seja oficialmente bem vindo.:)

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