O amor é brega. E quem não é?

sexta-feira, 14 de abril de 2017

FOTOGRAFIA


Uma cena de um momento importante, aqui, em minhas mãos, embora tanto tempo tenha passado desde esse dia. Olho nós dois, nossos sorrisos, a leveza que transparece espontaneamente em nós. Um lindo cenário, pessoas ao fundo, todas sorrindo e nos observando.

Uma linda imagem, reconheço, mas há tanto tempo que já não somos essas pessoas que chega a doer em mim, de tanto que desejei voltar a ser assim, tão leve, tão feliz, tão sua, da mesma forma que gostaria imensamente que você também fosse esse cara que está nessa foto. Mas não somos mais essas pessoas, já nem me lembro quem são todas essas pessoas ao nosso redor.

Essa fotografia fala de um tempo passado, muito bem vivido, mas que deixou marcas tão profundas que dificilmente consigo distinguir a felicidade de todas as dores que vivemos. É que você assumiu um papel inesperado na minha vida, na vida que nos propomos a ser nossa. E me causa arrepios lembrar de tudo isso, de como fui inteira ao seu lado, para hoje restar tão pouco de mim, da alegria estampada nesse olhar, preso nessa imagem em um papel velho, amassado, gasto pelo tempo. Revisitar essa memória me traz uma nostalgia um tanto dolorosa, sabe? Inesperadamente dolorosa.

Mas é inevitável. Volto àquele dia, como num tipo de túnel do tempo, como se me transportasse e pudesse observar atentamente esse momento tão lindamente registrado pelo olhar de alguém. Agora, esse alguém sou eu. Observo toda a alegria, as risadas, as lágrimas emocionadas, nossa dança, amigos que não recordava, pessoas tão próximas, alguns parentes queridos (outros nem tanto assim), muitas pessoas. Um lugar incrível, lindo, todo enfeitado. Há muita felicidade nesse lugar, dá pra sentir. E volto a sentir, com os olhos marejados e um sorriso que surge bem no canto da boca e vai se espalhando.

Revisitar essas memórias me faz sentir um forte aperto no peito e não sei bem explicar o sentimento que o envolve, embora entenda a dor que perpassa todas as histórias subsequentes. É que você não viveu nada disso como eu estava vivendo, e me deixei levar por tanta emoção, tantos momentos mágicos, assim como esse que agora me aponta um instante tão intenso e ao mesmo tempo tão sutil.

Não há nada que justifique o que foi vivido desde então, e como tudo isso me levou até aqui, agora.
Vejo-me sentada no chão, bem no corredor dessa casa enorme, com uma enorme caixa repleta de lembranças, objetos, presentes, coisas deixadas para trás junto com você, mas é impossível me livrar de tudo isso de uma vez por todas. De alguma forma, vez ou outra esbarro em algumas dessas coisas, e tento ignorar ao máximo, até não conseguir mais e me permitir mais e mais momentos como esse de agora. Vou revirando a caixa, até encontrar algo que me traga certezas, embora nenhuma delas possa garantir um amor que não fora vivido por dois, mas por apenas um, ou era tão pequeno que foi embora muito rápido.

Apenas uma caixa. Dessa vez, apenas uma foto. A sensação de que existe uma saudade gigante é maior que tudo, mas respiro fundo, seguro o choro, dou meia volta, me desligo dessa memória viva, fecho mais uma vez a caixa e guardo bem escondida, mas não tanto assim, afinal ainda precisa voltar aqui e lembrar por que ainda estou viva: por ter deixado você ir embora.

MAGDA ALBUQUERQUE.
Magda Albuquerque. 26 anos. Prolixa. Psicóloga. Mistura realidade e fantasia em um encontro com a sua criatividade. Sempre em busca de tornar os dias mais leves com uma palavra ou outra, tentando organizar o próprio mundo. Escreve para organizar o próprio mundo, com a missão de colorir a vida - a sua e de todos.

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