O amor é brega. E quem não é?

quinta-feira, 27 de abril de 2017

CARTA SOBRE A SAUDADE QUE EU NÃO SINTO.



A casa anda bagunçada desde a sua despedida, sabe?! Tudo tem ganhado vida própria e reclamado a sua ausência de tal modo, que uma hora eu terei de resolver: ou assumo de vez que sinto a sua falta, ou a casa se rebela contra mim e me joga à sarjeta. Não que eu não possa admitir minha saudade, mas ainda tenho aquele pedacinho de orgulho guardado que teima em apagar o seu número da agenda, desde que você tomou a decisão de partir.

Sonho, realidade, devaneios... de repente pode até ser a loucura me batendo à porta. Imagine que, outro dia desses, levei um sermão daqueles que antes só mãe dava! Surpresa agora é quem me encheu de verbos... ou melhor, o quê! Lembra aquela camisa de basquete que você sempre vestia quando vinha dormir aqui? Sim! Aquela preta escrita Indiana, com o número 7 nas costas... Me reclamou, num tom quase professoral, e elencou uma dezena de motivos sobre preferir o seu cheiro ao meu. Acho que você a deixou mal acostumada (ou muito bem...). Ela me contou que nunca havia se encaixado tão perfeitamente num corpo como o seu. - Ok. A referência era o meu corpo. Acho que aí nós dois concordamos absolutamente. - Mas que seu cheiro conseguia ficar por dias, semanas seguidas impregnada nela. E sempre que o seu perfume ia se perdendo, você chegava aqui e o renovava por mais algum tempo.

E sabe o espelho que sempre passeava entre banheiro, quarto e corredor? Cansado de refletir a mesma cara barbuda e desleixada, quase aos prantos me pediu a sua volta. Sério! Me confessou que toda vez que você sorria frente a ele, ele sorria de volta. - Então... meio óbvio, já que ele é um espelho. - Só que ele também disse que sempre se orgulhava quando nossos sorrisos sorriam juntos em seu reflexo. É que ele falou que gosta mesmo é de mostrar a felicidade de quem se vê nele. Desde que você foi embora, seu reflexo já não tem mostrado muitos sorrisos...

Teve também aquela xícara com os corações espalhados em sua estampa.Tá bem, eu sei que você não gosta de café e nem a usava. Mas ela me disse que, ainda que o café sempre esteja doce, quando a minha boca encosta nela, ela tem sentido um gosto um tanto amargo. Enquanto você esteve presente não era assim. Acho que seus lábios adoçavam os meus e, justamente, a xícara sentia toda a diferença.

Já a cama reclama que era o seu mal dormir que acalmava ela. É que você a bagunçava exatamente do jeito que ela gosta. Enquanto eu, amuado no canto com a cara enfiada na parede, tenho deixado todo o resto dela vazio. Fronhas, lençóis e cobertores anoitecem e amanhecem sempre da mesma forma... Antes brincavam de diferenciar nossos fios de cabelos que se perdiam entre eles. Seus cachos multicoloridos sempre ganhavam em quantidade e tamanho em relação aos meus cabelos desalinhados. Já nem lembro quantas vezes acordei buscando algum fio seu ainda preso em minha barba. Os travesseiros já não conseguem ter uma noite inteira de sono. Às vezes, um deles amanhece no chão. Até me pediu para voltar ao guarda-roupa, já que não se via mais tão útil como quando você estava aqui.

O pente sente a falta de acarinhar os seus cabelos, os copos do doce repouso de seus lábios, os livros do toque delicado de suas mãos, toalhas, chuveiro, mesa, cadeira, sala, cozinha, quarto... não há quem, nesta bendita casa, não esteja sentindo a sua falta. Acho que até quando eu me mudar, o que ficar para trás ainda guardará resquícios seus. Muitas outras coisas eu levarei comigo, incluindo cada saudade incrustada em tudo o que esteve um dia em sua presença, ganhou o seu toque. Queria que você estivesse aqui, sabe?! Não aguento mais tudo ao meu redor reclamando essa saudade de você. A minha poderia até ser mais uma delas. Mas já não tem cabido nessa casa, imagine dentro desta carta?


VITOR VILAS BÔAS

Baiano, professor de história, apaixonado por política, café basquete, fórmula 1, natureza e pizza de atum com catupiry. Hoje caminha sem muita pressa pelas ruas de Aracaju, deixando as ideias fluírem através do encanto captado pelos seus olhos e ouvidos. Anda, frequentemente, de sorriso e coração abertos, vivendo com a intensidade que os seus 30 anos ensinaram.

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