O amor é brega. E quem não é?

quarta-feira, 8 de março de 2017

MULHER, VÁ CONQUISTAR O MUNDO

ouça enquanto lê: Elza Soares: Dura na Queda 

Era um dia decisivo para Letícia. Depois de dois anos no escritório de contabilidade onde trabalhava, estava indo para uma reunião importante com uma empresa de grande porte. Seria excelente se ela conseguisse trazer a multinacional para ser cliente de sua equipe. Ela estava apreensiva, apesar de não ser a primeira vez que participava ativamente de um momento como esse. Na verdade, não era a segunda, nem a terceira vez. Letícia era excelente contadora e gestora de crises, mas dificilmente era reconhecida pelas suas ideias inovadoras, equilíbrio e sabedoria no ambiente de trabalho. Agora se tivesse algum deslize em qualquer um desses quesitos... já sabe, né? Era mal amada, o marido que dormiu de calça jeans ou a TPM.

O escritório era dominado por profissionais do sexo masculino e se tem uma coisa que ela aprendeu das maneiras mais doloridas, foi que por simplesmente ser mulher ela tinha que mostrar competência em dobro. Tinha que ser uma profissional impecável, mas isso não era nenhum sacrifício pra ela. Realmente Letícia era excelente em tudo que se propunha a fazer. Ela tinha sempre uma resposta pronta na ponta da língua pra explicar o porquê de não ser obrigada a fazer o cafézinho pra todos da firma, apesar de ser mulher. Inclusive o seu café era uma delícia, e Letícia sabe que obviamente servir café não diminui ninguém e não é uma função indigna. Porém, o problema era "coincidentemente" apenas ela ter que realizar essa tarefa entre outros cinco funcionários com o seu mesmo cargo.

Foi assim que ela criou uma escala de limpeza e café desde que seu chefe decidiu demitir a equipe da copa por contenção de gastos. Nem preciso dizer que atitudes como essa incomodavam, né? Afinal, elas tiram a maioria do seu comodismo. O que era pra ser algo simples e justo, acaba se tornando revolucionário. É por isso e por não aturar piadinhas do estilo "teste do sofá" que ela nem sempre era bem vista pelos colegas de trabalho.Seu chefe, Manoel, era mais flexível e confiava no seu trabalho, apesar de não reconhece-lo como deveria—- inclusive no contracheque. Mas, por isso, ele a enviou pra ser sua representante nessa reunião decisiva. O que fez alguns funcionários torcerem o nariz. Letícia não ligava, pelo contrário. Isso a estimulava a fazer o que sabia de melhor e agir da maneira mais correta possível.

Antes de qualquer coisa sentou-se a mesa pra tomar um café puro com o marido e a pequena Júlia de cinco anos. Era sobretudo por ela que Letícia lutava. Para que o mundo estivesse pelo menos mais habitável e justo quando ela crescesse. Vestiu o seu terninho preto com camisa social branca que a valoriza muito, um salto na medida que a deixava confortável, uma maquiagem que realçava bem os seus olhos confiantes e um batom leve. Separou uma pasta com tudo que precisava, respirou fundo e se olhou no espelho com a cabeça erguida. Sabia que aquela não era uma batalha apenas sua. Carregava com ela todas as suas semelhantes, e esse senso de responsabilidade lhe dava uma coragem ímpar. Ela sabia que era capaz, mas estava na hora de mostrar isso pro mundo.


SUÉLEN EMERICK.
24 anos. Brasiliense que vê poesia no cinza do concreto. Jornalista que escreve por/com amor. Uso vírgulas e crases imaginárias pra contar histórias, e o coração pra vivê-las.

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