O amor é brega. E quem não é?

sexta-feira, 3 de março de 2017

FECHEI A PORTA QUE DÁ ACESSO À SUA VIDA.


Quem nunca viveu aquela paixão que te tirava o senso, o juízo, fazia perder o horário de voltar para casa, algumas roupas no processo e te injetava altas doses de adrenalina? Quem nunca desejou tanto uma pessoa, que se jogou sem proteção, porque acreditava que, independente de circunstâncias, essa pessoa iria lhe segurar? Quem nunca acreditou na porra do “para sempre”, mesmo ouvindo a Cássia Eller cantar as Quatro Estações?

Não sei vocês, mas eu já. E eu acreditei que ele seria o cara que viria para bagunçar o meu mundo, e realmente a parte da bagunça ele cumpriu fielmente. Só que ele foi embora logo e não se importou com os destroços que deixou para trás. Não foi uma bagunça boa, foi algo que me pôs medo. Ele foi profissional na arte de me fazer acreditar naqueles dias de quarta-feira de cinzas como se fosse natal. Calma lá, porque esse não é mais um desabafo de uma pessoa que teve o seu coração partido. Ele foi um babaca e isso é fato, mas eu tive a minha porcentagem de culpa — não por acreditar nas mentiras que me foram ditas, mas sim por me deixar afetar mesmo depois de tudo já terminado. E quantas vezes eu me sentia incrivelmente bem, até sair na rua e ver ele passar? Meu semblante mudava, meu sorriso sumia e, seja lá qual fosse o programa, eu perdia completamente a vontade de estar ali.

Quantas vezes fui à festas que tanto amo e chegando lá, alguém perguntava: — E ele? Não vem hoje? Quando não, eu sentia seu perfume em outros corpos, ou até mesmo você resolvia aparecer e nunca era desacompanhado. Poderia ser o Slash com o solo de guitarra mais incrível e inédito no palco a entreter a multidão, a minha noite acabava e eu pedia a alguma amiga: —Me leva pra casa?

Hoje não foi diferente.

Há dias eu não sabia o que era lembrar de você e, de repente, uma simples notificação me trouxe uma enxurrada de lembranças. Você — que já não deve nem saber mais qual é o meu nome, que programa aquela nossa viagem com outra pessoa e que tem vivido a sua vida sem se quer se importar qual ainda é a minha comida preferida — vem e, sem pedir licença, se aloja no meu dia chuvoso para que? Para me lembrar que ainda somos um do outro?

No primeiro instante eu senti as pernas perderem o sentido, lágrimas brotarem em meus olhos e pensei em me jogar na cama o dia inteiro. Mas aí você ganharia de novo, né? Então, melhor que isso, tomei coragem para apagar os últimos resquícios de você aqui de casa. Todas as nossas lembranças estão dentro de uma velha caixa de papelão, a qual eu acabei de atear fogo e sem o menor remorso estou a observar enquanto em minhas mãos seguro uma xícara de café.

Nove meses se passaram desde o último encontro. Não posso continuar esperando que note que ainda estou aqui, até porque não quero mais estar aqui, não quero mais a sensação de garganta trancada, olhos que queimam, cabeça parecendo que vai estourar e um mal humor eterno como se isso já fizesse parte da minha pele.

Por você eu perdi o sono, a fome, a paz, me desestabilizei, desacreditei do amor. Tudo isso apenas até hoje. Ou melhor, até agora. Por que não irei mais me entristecer por nada e nem por ninguém, tão pouco por você. Quero momentos novos, pessoas novas, sorrisos de verdade, quero passar por você na rua, como semana passada, e sorrir. Não por estar te vendo, mas por ter te superado.

Cultivarei momentos de felicidade. Vou gastar o meu tempo com pessoas que riem, que celebram e que tenham no mínimo 90% de loucura. Mas, sobretudo, irei bater a porta na sua cara e depois irei jogar a chave fora. Quero conhecer uma pessoa sem ter o medo dela me magoar. Você foi um babaca, mas eu não serei aquela que irá eternizar a sua lembrança. Você escolheu partir e eu escolhi viver. Estou na onda da seletividade e, se não valer o meu tempo, terá que lidar com a minha indiferença.

E sobre nós dois? Bom, isso também acabou.


RÊ VIEIRA
Sul-mato-grossense, escorpiana, bacharel em Direito, mas viciada nas palavras, brinca de ser poeta e é rockeira de coração. Ela é uma mistura de intensidade com a voracidade de viver, é apaixonada por livros, pessoas legais, música e é louca por vinhos.

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