O amor é brega. E quem não é?

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

ROSA

jaya-magalhaes-liricas

Entrou já atrasada, descalça, segurando os sapatos de saltos muito altos na mão esquerda. Na mão direita, equilibrava a bolsa e um cigarro que tentava manter-se aceso entre o polegar e o indicador, apesar da chuva. Caminhava nas pontas dos pés, com os cabelos encharcados e a face em aquarela chorosa, pela maquiagem que escorria. Não quis toalha para enxugar o excesso de água, estava com muito calor - repetiu duas vezes. Sentou-se.

— Me protegi na marquise do prédio da esquina por quase uma hora, até que me descontrolei. Sou eternamente água em minhas vezes de sereia. Caminhei pela rua deserta em passos muito lentos, me deixando molhar na espera de que tudo o que ainda fosse broto acordasse dentro de mim. Não sei. Hoje saí de casa querendo fazer parte um musical, nadar pelada num rio de águas muito transparentes, me sentir plena, louca, solta, mulher – despudoradamente mulher. É necessário ser aceita, por ser. Afinal, não somos, todos? Saí querendo poder andar de bicicleta com meu salto agulha, que é tão frágil, mas equilibra o meu mundo – e só os deuses sabem o peso que o mundo tem. Saí querendo alguém que me coma gostoso, com olhos, nariz, boca, pele, sexo – e poesia. É preciso que se coma com poesia. Tenho sentido tanto frio em dias com muito sol. Ando na expectativa de escrever um manual explicando que ninguém deve jamais ler a vida como um manual – não somos estáticos, nos fodemos e nos curamos dia e noite. Um coração partido se quebra para, na soma, multiplicar ainda mais de si. De tanto coração que tenho, já enlouqueci oitocentas e noventa e seis vezes nas últimas quatro horas. A loucura infinita se infiltrou em cada uma das minhas veias, escrevi um livro de ontem pra hoje, cento e dezenove páginas em nome da necessidade de me livrar de toda e qualquer história que ele ainda possa protagonizar na minha vida. Agora só tem espaço para mim – e para tudo o que há de chegar nas minhas eternas reticências. Posso acender mais um cigarro? Me desculpe.

Enquanto falava, balançava muito as pernas. Soltava a fumaça entre os lábios bonitos que tinham um estranho formato de coração e parecia haver ali – atrás de toda a fumaça - um véu, através do qual eu peneirava seu desespero. Aquele delicioso desespero de quem vai. Ela estava indo.

— Acendo todos esses cigarros porque geralmente não sei o que fazer com as mãos, existe um vão muito grande e fico na ânsia de agarrar alguma coisa. Qualquer coisa. É tão importante que se tenha algo nas mãos! E o meu querer... O meu querer é imenso, intenso, denso. Sentir continua a ser a única maneira que conheço de estar viva. Descobri ainda que, sentindo, não preciso fazer sentido algum. E não faço. Tenho visto todos aqueles filmes franceses, ensaiado uns puta delírios completamente europeus, entrado em transe a cada vez que uma coisa muito linda se aproxima. É incontestável a imensa beleza que tudo carrega. A minha ansiedade é desesperadora. Me livrei de promessas. As coisas acontecem quando me deixo engravidar por elas, preferivelmente ao engolir distraídos copos de cerveja e sentir a vida muito dócil, maleável. Minha gestação dura uma vida inteira. Carrego amor, o parto é eterno. Entre transtornos e felicidades: sobrevivo. Minha cama continua grande demais, meu coração cansado demais, minha vida um teatro com atores ruins demais. Um problema muito comum, uma vez que ninguém ensaia para cair no mundo. A gente sai da nossa redoma aos prantos. Nascer dói. Renascer, no entanto, é doce. Estou renascendo. Isso é bom pra caralho.

Levantou-se e saiu, assim: despetalada, voando em plena tempestade, semente de si mesma, aguardando a próxima primavera.

JAYA MAGALHÃES
Escreve. Da Bahia: às vezes serra, às vezes mar – sempre azul. Pela poesia. Porque não sei desenhar. Porque viro aquarela. Para que os meus possam me amar mais. Para ver nas palavras espelhos de mim. Para ser nas palavras o oposto de mim. Para ser. Escrevo, porque sou. Escrevendo sou possível. Aconteço.

0 comentários:

Postar um comentário