O amor é brega. E quem não é?

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

GAME OVER PARA NÓS DOIS

re-vieira
Leia ao som de Semisonic - Secret Smile 

Quisera eu que essa aqui fosse uma dessas cartas de despedida, porém ela é mais uma de minhas declarações piegas feitas à mão para você. Você que hoje não faz parte de meus dias e tão pouco tenho contato, mas ao reler cada linha tenho a plena certeza do quanto foi real e que, independentemente de dia, local e hora, aquele velho clichê do "para sempre", se fez eterno em nós. Em um novembro qualquer, em uma dessas sexta-feira de um certo ano de 2000 e pouco pra trás, lhe escrevi mais ou menos assim:

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Não temos o poder de saber como será o amanhã, tão pouco quanto tempo nos resta para estar ao lado de quem realmente queremos estar. Exatamente há dois ano atrás, neste mesmo mês, eu conheci um garoto marrento e extraordinário ao mesmo tempo. Possuía uma simplicidade imparcial e de uma parceria única — você.

E hoje senti vontade de te lembrar, caso tenhas se esquecido, o quanto tu és essencial em minha vida. Não é seu cabelo perfeitamente cortado, ou o seu sorriso bobo, e tão pouco é aquele abraço desajeitado que deixa tudo mais leve... O que me faz te desejar ao meu lado é algo que a razão jamais irá explicar. Não é a pele, tão pouco a química, nem o que já vivemos, é mais do que um clichê do "quero, porque me faz bem".

Porra! Faz mais que bem, e você sabe. Você é a companhia pra um bom porre, ou pra me levar para casa. Você se faz presente em meus dias de alegria sem motivos, e também está lá para os que estou extremamente chata, seja por horas a fios só para conversar, ou sendo meu melhor programa para um domingo preguiçoso no chão da sua sala. Você sempre foi a parte racional dessa relação que, há quase dois anos, ainda não soubemos como definir. Meu melhor amigo, o cara que me pira e também que fica ao meu lado até o sol nascer.

Você foi a pessoa que eu sempre tive a plena certeza de poder olhar e sentir que veio para ficar, e que jamais seria só saudades. Sim, saudades eu sinto, mas podemos matar. Não quero conjugar você no verbo do passado, te quero aqui no presente lado a lado, quero aquele olhar firme e o abraço gostoso sempre que nos reencontrarmos. Quero poder te ajudar, te ouvir e sempre estar ali por ti, como todas as vezes que gritei você esteve lá por mim, mesmo que você seja completamente fechado e não goste de dividir, não tem problemas, eu tenho colo, e prometo não ter pressa para ir.

Eu nunca cansarei de dizer o quão sortuda eu sou pelo dia que nossos caminhos se cruzaram. Você é cheio de manias e regras, não gosta de maracujá, é viciado em música, é de poucos amigos, mas valoriza cada um dos seus. Sei que o seu sorriso vem sempre com a satisfação, e também tem mais de um sorriso, e sei exatamente qual é o que dedicas para mim.

Quando você passa mão no rosto e esfrega o cabelo? Dá licença que o sono dele está chegando. Quando franze a testa e curvas se fazem entre seus olhos, e as sobrancelhas se sobrepõe, é o tédio dominando. E quando faz o sorriso de boca, de canto — meu preferido — o significado é deixa para outra hora, e em especial para aquele nosso lugar. É incrível as formas que seu rosto faz, o melhor é seu jeito sem jeito de nunca saber receber elogios. Te quero por perto simplesmente pela paciência que você tem comigo, sobretudo em ouvir meus dramas, acompanhar minhas histórias, conhecer meus medos. E estar ali lado a lado.

Você é aquele que aceita meu jeito desconcertado e que dá risada sempre por eu demorar para entender o que você tem a dizer. É a pessoa mais implicante e a que eu mais desejo ter. Não entende das minhas nerdices, mas e daí? Eu também não faço a menor ideia do que sua física é capaz de construir. Meus sentimentos não estão no que você é, mas em quem você é, na segurança de nossa cumplicidade, no medo que tenho de perder isso. Está, especialmente, na pessoa que você me permite ser quando estamos juntos, sem máscaras, sem frescuras, sem limites. Gosto de você pela sua essência e jamais será pelo que os outros dizem e tão pouco como os outros te veem.

Você consegue ser a melhor pessoa do mundo e a mais chata também. Já tive uma lista infindável de motivos para ir embora, mas antes mesmo de cruzar a porta, sempre joguei tudo e pedi se poderia ficar. E quantas vezes eu já fiz isso, não é? Incontáveis vezes eu diria. E você sempre me esperava voltar. De alguma forma o destino nos apresentou e hoje eu gostaria que soubesse que eu tenho orgulho do que já construímos juntos. E o mais bonito foram todas as vezes que era para dar errado, e no fundo eu só pedia a Deus o quanto queria que desse certo

E essa é a única certeza que tenho na vida: sempre vou querer você ao meu lado.

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Ao ler essas linhas me deparo com uma mulher completamente diferente de alguns anos atrás. Quem me observa ao passar na rua, com meu jeans todo desbotado, meu cabelo colorido com fones de ouvidos e um all-star azul, não faz ideia de quantas marcas eu trago em minha pele e tampouco o peso que tem em meu coração. É fácil poder julgar o que o outro te mostra, porém são pouquíssimos os que realmente reparam em nossas tristezas embutidas num sorriso amarelo. A cada nova notificação sinto que uma parte de mim se desintegra. É patético ainda querer tanto uma pessoa, a qual eu nem sei se ainda se recorda do meu nome. Você sempre se manteve estagnado na demanda de não ser de ninguém, e hoje se entrega ao velho clichê das histórias em quadrinhos.

Eu sei que reviver o passado é se mutilar continuamente, mas essa será a última vez — e assim eu espero que seja, não como todas as outras promessas que eu já quebrei em vão. Estou lendo, mais uma vez, todas as conversas que eu já deveria ter apagado, estou revendo fotos e ao olhar para o que minha vida se transformou depois da sua, vejo o quanto você levou de mim naquele último beijo. Levou todas as certezas, me transformou nessa pessoa desacreditada e uma repleta bagunça. Ouvir conselhos e seguir em frente parece fácil, mas não é tão simples quanto na teoria. Reler essa carta e ver o resquício de uma linda história, a qual tivemos a oportunidade de compartilhar, me faz afortunada, porque eu pude amar. Hoje olho, não com saudades, talvez um pouco de melancolia por ter acabado, porém feliz também por ter acabado. Não nos pertencíamos como eu acreditei que poderíamos ser. E merecemos mais. Eu mais de mim e você muito mais de você.

Alguns finais vêm para dar a ênfase em um novo recomeço. Hoje essa carta, que foi escrita no passado, me mostra que, na realidade, você não faz mais parte da minha rotina nada organizada, mas será sempre um capítulo de minha história, e nossos erros eu não irei mais depositar em uma outra pessoa. Hoje eu te deixo ir e, finalmente, sei que estou pronta para um novo final feliz.



RÊ VIEIRA
Sul-mato-grossense, escorpiana, bacharel em Direito, mas viciada nas palavras, brinca de ser poeta e é rockeira de coração. Ela é uma mistura de intensidade com a voracidade de viver, é apaixonada por livros, pessoas legais, música e é louca por vinhos.

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