O amor é brega. E quem não é?

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

LUZ DE FIM DE TARDE

Leia ao som de Infinito Particular, Silva.
Estávamos sentados frente a frente. Curiosamente como no nosso primeiro encontro -como você mesmo observou bem. Mas dessa vez podíamos tocar as mãos um do outro sem cerimônia. O resto dos nossos corpos estavam fisicamente separados por uma gélida mesa de mármore. De frio era só ela e a nossa comida japonesa que havia ali.
Pedimos sashimi. Te apresentei o meu favorito: sashimi de salmão maçaricado. (salivei aqui enquanto escrevia). Você, no entanto gostou mais do de anchova defumada. Também uma delícia.Era o nosso jeito de ter diferenças em sintonia. Nossas mãos só se soltavam quando precisávamos delas pra equilibrar os hashis (ambos sem habilidade com eles) ou para pegar as bebidas. Guaraná com rodelas de laranja e refrigerante sabor citrus com rodelas de limão. O seu e o meu, respectivamente. Você me dava um carinho tão gostoso nas mãos com as pontinhas de seus dedos! Era como se afirmasse o tempo todo: "ei, eu to aqui. Do outro lado da mesa, mas to aqui".
Descobri que janela de vidro e luz de fim de tarde é definitivamente melhor e mais romântico que jantar a luz de velas. Você me fotografou com aquela iluminação natural ao fundo. Eu me sentia completamente à vontade nas suas lentes (falando assim parece até uma câmera profissional, mas era só um smartphone). Eu também gostava de te fotografar. Gostava daquela sensação única que a fotografia me dava -ainda que irreal - de que eu podia congelar os momentos bons. A fotografia desafia o infinito. E costumávamos dizer que vivíamos um infinito particular -como lindamente cantou Marisa Monte.
Estava gostando daquele ângulo. Ele me proporcionava uma visão quase total de você e não deixava dúvidas: é esse o cara que eu quero na minha vida.
Ficamos nos deliciando ali por algumas horas. Foi o suficiente pra eu sentir muita saudade do seu corpo ao meu lado. Do xero (com xis mesmo) que você me dava no pescoço, do cheiro bom da sua barba bem cuidada, das suas mãos segurando com força minha cintura e do seu beijo. Ah! o seu beijo! Como eu amava esquentar meus lábios nos seus! Era como se eles sempre tivessem se pertencido em um encaixe natural, perfeito e inegável.

Rapidamente você migrou pra cadeira ao meu lado. Certamente também sentiu a mesma saudade que eu. Poucos entenderiam e nos julgariam grudentos demais. Nem ligamos. Nos abraçamos e me veio a memória novamente o nosso primeiro encontro. Desde a primeira vez que sentimos o abraço um do outro, a gente não quis mais soltar. Quem esbarrava conosco na estação do metrô, achava que já éramos um casal (e de fato éramos, só não sabíamos ainda).

Encostei meu nariz nas suas bochechas e senti com a ponta dele a pequena cavidade que se formava ali. Era a sua covinha que tanto amo e complementava o belo sorriso que você tem. Eu nunca vi a felicidade, mas acho que ela realmente existe e deve se parecer com aquele momento: luz de fim de tarde, mãos dadas, cheiro, beijo, saudades, infinitos. O nosso paradoxo de paraíso.


SUÉLEN EMERICK.
24 anos. Brasiliense que vê poesia no cinza do concreto. Jornalista que escreve por/com amor. Uso vírgulas e crases imaginárias pra contar histórias, e o coração pra vivê-las.

2 comentários:

  1. Não tem como não ser fã dessa escritora maravilhosa ❤

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Bruninho, eu que sou sua fã. Sou demais e você sabe disso, né? ❤ obrigada por me ler!

      Excluir