O amor é brega. E quem não é?

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

AMOR DESEMBARAÇADO

Leia ao som de Talvez - Ana Vilela 

Os olhos amendoados de Eduardo, quando me fitavam, ainda faziam cócegas nas minhas bochechas. Rapidamente elas entregavam minha timidez com aquela tonalidade avermelhada que ficavam. Impossível de disfarçar mesmo com a armação gigante do meu óculos - e eu nem fazia questão. Eram olhos castanhos, mas não aquele castanho comum. Tava mais pra um castanho tempestade (como na canção de Renato Russo). Eram os olhos de Eduardo e pronto. Não tinha muito com o que comparar.

Já fazia quase um ano que não estávamos mais juntos e a vida continuava aparentemente igual. Nos víamos todos dias, nem que fosse de relance. Ele trabalhava na requisitada barbearia Paulista e eu na pacata relojoaria do seu Jorge. Os dois estabelecimentos eram separados apenas por um corredor no subsolo de um movimentado shopping center. Quando o expediente estava muito corrido por lá, ele me cumprimentava de longe nem que fosse apenas com aquele sorriso dele. Apenas? Não. Me corrijo. Dificilmente vou conhecer nessa vida um sorriso tão bonito quanto o de Eduardo. Talvez em outra vida.

Eu admirava Eduardo. Ele era muito bom no que fazia. Além de pontual e responsável, era super controlado com sua grana. Não ganhava muito, mas rendia pra caramba. Ele ajudava a mãe com quem ainda morava e pagava seu cursinho pra concurso que frequentava sempre após o expediente. Quando estava de folga, gastava horas a fio em uma biblioteca próxima a sua casa pra colocar todas as matérias em dia. Enquanto escrevo aqui, eu me espanto como ainda sei cada passo de sua rotina decorados.

Nós nos dávamos muito bem. Frequentemente os amigos em comum e até os clientes questionavam nosso término. Eu não tinha respostas, provavelmente nem Eduardo tinha. Nosso término foi algo natural, assim como o começo. Quando começamos a namorar, não houve pedido de nenhum dos dois. De repente estávamos juntos, de mãos dadas e nos amando. Sim, não tenho dúvidas que foi amor e ainda é. Pode soar estranho pra muitos, e a maioria me questiona o porquê de não lutar pela relação se ainda há amor. E eu continuo sem respostas.

— Vamos tomar um café?

Eduardo disse enquanto penteava o cabelo de um cliente. Sabendo ele que eu era ótima em leitura labial. Respondi com um sorriso afirmativo. Era começo de mês. Sempre que recebíamos íamos a um delicioso café que ficava no piso superior do Shopping. Chamávamos de "café de rico". Eduardo saía mais tarde. O esperei pacientemente, como nos velhos tempos, enquanto lia um livro novo. Provavelmente algum que ele indicou. Não me lembro ao certo agora.

— Demorei? — ele perguntou docemente, não querendo me assustar. Sabia da minha hiper concentração enquanto lia.

— O de sempre. — eu respondi com um sorriso entre lábios.

— Já fiz o pedido. Um frapuccino com chantilly pra você e um café expresso sem açúcar pra mim. Acertei?

— Claro. Vou querer um pão de queijo também. O daqui é uma delícia.

— Só não deve ser melhor do que o de sua mãe. Aliás, como ela está?

— Está bem. Sempre perguntando de você. Sabe que ela te adora, né?

— Ela é uma fofa. Mande um beijo meu pra ela.

— Mandarei. Com certeza. — eu sorri novamente e foi o tempo dos pedidos chegarem.

— Nossa! Como eles preparam rápido. Mas também o preço, né?

— Ainda bem que é só uma vez por mês. — Nós dois rimos.

Era impressionante como a gente se conhecia e como ficávamos à vontade na presença um do outro. Não havia desconforto nenhum, mesmo após o término. Ele tomava o café sem pressa, deliciando cada gole e eu deliciava a sua presença. E sentia saudades. Várias saudades diferentes em relação a ele, mas a que mais me perturbava era a saudade de andar de mãos dadas a ele como um par. Como um verdadeiro casal.

Jogamos conversa quase até a hora do shopping fechar. Mais um café, depois mais um, depois outro. Conversamos sobre novos livros e também os antigos, sobre férias, festivais de música, indicações de filme e seriados, estudos... de tudo um pouco. Nem nos preocupamos com o preço da conta e muito menos com o horário aquele dia. Mesmo Eduardo que não consegue deixar nada fugir do seu controle, esquecia o tempo e dinheiro quando estávamos juntos. Talvez fosse isso que ainda nos unia: esse amor desembaraçado. Ele era bom nisso de desatar nós e deixar tudo mais simples como tem que ser.


SUÉLEN EMERICK.
24 anos. Brasiliense que vê poesia no cinza do concreto. Jornalista que escreve por/com amor. Uso vírgulas e crases imaginárias pra contar histórias, e o coração pra vivê-las.

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