O amor é brega. E quem não é?

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

EM MENOS DE UM SEGUNDO


► Para ouvir ao som de Photograph, Nickelback ◄

Hoje eu acordei e reclamei da vida. Na volta de um trampo reparei na moça que sorria de um jeito bobo ao olhar o céu. Tinha acabado de chover e as nuvens estavam começando a se dispersarem. Ela olhava para aquele azul que ia surgindo como esperança em um dia ruim. Foi um dos risos mais verdadeiros que vi na vida.

De certa maneira, aquele olhar pra vida - do riso daquela moça - despertou algo em mim. Continuei o meu percurso sentindo o mundo, tudo aquilo que era vivo e tudo aquilo que era sem cor. Tudo aquilo que era imóvel e todo sentimento nos olhos de pessoas que eu sequer tinha cruzado. Reparei nas modelos do outdoor, reparei nos garis que limpavam a rua entre uma piada e outra, entre o dedo que limpava o suor do rosto e as mãos calejadas. Olho novamente para as modelos do outdoor, olho novamente para os garis, modelos de vida.

O semáforo fecha, eu precisei frear. Abri um pouco a janela para sentir o vento. Então se aproxima uma criança andarilha e me entrega uma foto e um bilhete. No rádio do carro começou a tocar Photograph do Nickelback, não manjo muito de inglês, mas não preciso pra entender a primeira frase que o Chad diz na música: “Look at this Photograph “, traduzindo, “ Olhe para esta fotografia. Podia ter milhões de pessoas sintonizadas naquela mesma estação de rádio, mas aquilo era pra mim, definitivamente aquilo era dito pra mim. A foto é de uma senhorinha, o bilhete era dizendo que ela era sua mãe, tinha câncer e qualquer ajuda era bem-vinda. Pensei em perguntar em qual horário ela estudava, mas por um instante acabei desistindo. 

A vida cobra algumas prioridades e com quem a gente ama elas são essenciais. E não acho nada justo julgá-la por isso. Peguei o dinheiro que tinha no console do carro e entreguei na sua mão. Ele me disse: Que Deus te abençoe. Aquilo chegou ao meu coração de uma forma que você não pode imaginar. Dizem que quando as coisas são de verdade, de certa maneira, a gente sabe. E eu soube. E eu senti.

O dinheiro não sobra muito, mas nunca faltou como eu às vezes reclamo. Pensei nisso quando peguei uma foto de uma criança andarilha em um semáforo. Minha mãe sempre disse que a felicidade está em enxergar o coração das pequenas coisas. Isso começou a fazer sentido.

Tinha um moço empurrando um carrinho de bebê. Tinha um moço empurrando uma vida que tinha acabada de nascer. Uma vida que vai ter altos e baixos, que vai sorrir e vai chorar. Uma vida que vai sonhar, que vai ter prestações da vida para pagar, que vai ter parcelas da vida perdidas para ser aquilo o que sonhou e que vai ganhar uma vida inteira pra aprender a ser feliz.

Continuei meu caminho. Vejo três pessoas esperando para atravessar a rua. Todas manuseando um telefone celular. Muito celular na mão, pouco coração na boca. A luz do combustível pisca. Preciso abastecer. O carro de combustível e meu coração de esperança no ser humano.

 Hoje eu acordei e reclamei da vida. Talvez amanhã eu reclame de novo, mas no segundo após eu vou parar, olhar o céu, reparar o mundo a minha volta e soltar um riso bobo. Em menos de um segundo posso não estar mais aqui.


FERNANDO SUHET.
Um pisciano romântico e cabeça dura. Palavras e músicas ditam sua ordem. Apegado aos sentimentos mais simples e completamente ligado à família. Fiel aos poucos e verdadeiros amigos. Acredita na força do amor e, principalmente, na necessidade de solidariedade.

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