O amor é brega. E quem não é?

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

A ROTINA SUFOCOU O AMOR.


As promessas ficaram jogadas no chão da sala. O quarto vazio, as malas esparramadas e aquela aflição absurda de abrir a porta e te deixar ir. Não tinha forças para gritar nem impedir. Confesso que paguei para ver – você sempre voltava. O que posso dizer? Você me deixou mal acostumada. Fazia birra, dizia um monte de besteiras, pensava melhor e voltava atrás. Não mudava uma vírgula, nem ousava ensaiar uma nova desculpa.

A rotina sufocava e a gente fingia que estava tudo bem, que numa bela manhã de outono despertaríamos dispostos e nos amaríamos no chão do quarto, como fazíamos no começo de nós dois. Não sei se nos iludíamos por comodismo ou por medo de admitir que os planos deveriam ser abortados e que daqui para frente seria cada um por si. É horrível aceitar que o fim da história se antecipou e o que parecia perfeito para nós pesou.

Eu quis dizer tantas coisas, te apedrejar, despejar as culpas que me amargavam a boca e te apontar tudo que poderia ter feito e não fez. Mas, em contra partida, pensava em como doeria ouvir de você as vezes que falhei sendo egoísta e orgulhosa. Eu falhei e tenho consciência, mas isso não muda o nosso desfecho. Caminhamos por abismos desconhecidos, nos distanciamos por causa do silêncio, da mania individual de resolver tudo sozinho. Poderíamos ter sido parceiros e cúmplices de várias aventuras, talvez tivéssemos encontrado novos meios de nos salvar, mas não. Preferimos o silêncio, o caminhar sozinho até alguma peça se encaixar.

Em algum momento pensamos que só o amor nos valeria e seria suficiente para remanejar todos os nossos delitos, mas não foi.

Eu quis gritar, quebrar todas as molduras que me sorriam de nós, todos os momentos que ardiam numa saudade apertada de quem teve o mundo nas mãos e o jogou fora por puro capricho. Nunca soube lidar com essa possibilidade de vê-lo ir. Achava que fossemos capazes de contornar qualquer conflito interno e não fomos. Quisemos estar longe, pensar melhor, cuspimos na cara do outro tudo que incomodava e ainda não bastou. Quantas palavras duras foram ditas no intuito de dilacerar o coração do outro, de fazer sangrar pra ver se assim alguém reagiria e daria o fim tão esperado.

Fomos covardes ao empurrar a relação para debaixo do tapete. Vestir sorrisos que não nos pertenciam a fim de mostrar uma pseudo felicidade. Eu queria sacudir o nosso chão, relembrar as alegrias que nos aproximaram e nos fizeram maior, queria olhar nos seus olhos e sentir orgulho de poder ser alguém melhor por sua causa, porque você sempre me inspirava e, de uma hora para o outra, só pensava em rotas de fugas e maneiras práticas de me desvencilhar de todas as memórias afetivas que me fariam desistir de um fim anunciado por atitudes que ignorávamos não existir.

Que saco! Nós nos perdemos. E isso está tão cristalino que até dói. Depois que você sair espero que pense em tudo que vivemos e só carregue o necessário para recomeçar. Que a gente seja a saudade boba que ilumina a face dentro de um sorriso de canto, desses que a gente dá quando o coração está em paz.

MARCELY PIERONI.
Escritora, administradora e chef de cozinha por escolha. Perdeu o medo de sair do lugar e desde que começou a publicar seus textos coleciona viagens onde pode abraçar seus leitores e estar mais perto daqueles que acolhem sua baguncinha. Palestra e conta histórias para crianças. É sonhadora de riso frouxo.

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