O amor é brega. E quem não é?

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

XÍCARA DE PORCELANA


❁ Ouça enquanto lê: Marcelo Jeneci - Feito Pra Acabar 

Ana sentou no parapeito de sua janela no segundo andar. Não era tão alto, o que a deixava confortável. Sempre teve medo de tudo que a tirava do chão, desde o elevador até um beijo apaixonado. Porém, ela tinha acabado de se mudar e queria observar dali a vista de seu novo bairro. Descruzou as pernas que estavam em posição borboleta e deixou os pés completamente livres. Em suas mãos segurava o inseparável café expresso, sem açúcar, em sua xícara de estimação. Era feita de porcelana — presente de sua falecida mãe, dona Doralice.

Degustou o café demoradamente, enquanto balançava as pernas como uma criança despreocupada. Colocou a xícara de porcelana no outro canto da janela e abriu os braços na medida que o espaço a permitiu. O apartamento era relativamente grande. Ana o tinha escolhido pensando em sua mãe, que era simplesmente apaixonada por aquele bairro e também porque ali teria mais espaço e conforto pra cuidar dela. Agora que dona Doralice havia ido embora, mais cedo que o esperado, Ana não sabia como iria viver naquele apartamento que, de repente, parecia maior que o normal.

Doralice tinha razão em gostar daquele pacato bairro. Era gostoso de se viver, limpo e acolhedor. Tinha quase tudo perto, inclusive a primeira escola que ela lecionou e um sacolão com verduras fresquinhas e sem agrotóxicos. Ironicamente, dona Dora (como era chamada pelos amigos mais próximos e alunos), sempre preocupou-se em evitá-los e ensinou isso para filha. "São extremamente cancerígenos!", ela alertava. Exatamente no dia anterior, fazia dois meses que um cruel câncer levou para sempre dona Dora com seus apenas 53 anos.

Ana estava triste, claro. Sentia uma saudade recente, dessas que doem como corte profundo que ainda não cicatrizou, mas o sentimento que mais a adoecia por dentro era o inconformismo. Ana não conseguia aceitar porque isso fora acontecer justamente com a sua mãe que era tão zelosa! Justo com ela que não permitia doces e refrigerantes como a maioria das outras mães de suas amigas de infância faziam. Era ironia demais do destino, mais do que Ana conseguia aceitar. Mas naquele momento, ela quis parar de questionar tudo e apenas respirar e aproveitar o fim de tarde.

O apartamento era poente, a pedido de sua mãe que amava o pôr-do-sol. Em virtude disso, queria assistir e contemplar o primeiro deles em sua homenagem. Dona Doralice sempre odiou ver a filha de preto. "Você fica gótica demais assim. Coloca esse acessório aqui pra dar uma corzinha!", ela palpitava. Por isso, Ana nunca quis vestir o luto. Sua mãe era sinônimo de vida e de alegria. Naquele momento, Ana estava usando uma camiseta cor-de-rosa, que ganhou de dona Dora no último natal que passaram juntas. Nela tinha a seguinte frase: "You only live once", e seria a próxima tatuagem de Ana. Mais uma ironia do destino, já que Dora sempre dava um sermão daqueles desde que Ana aparecia com uma tattoo nova. Eram sete no total.

O pôr-do-sol parecia demorar mais pra chegar por causa do horário de verão. O dia ia aos poucos se despedindo. Ana já estava em sua segunda xícara de expresso e a segurava com as duas mãos, bem próxima as narinas pra sentir o seu aroma preferido. Ana fechou os olhos para apreciar o silêncio ímpar que aquele lugar proporcionava, mas, de repente, toda aquela paz foi interrompida por um barulho ensurdecedor. Ela assustou-se, abriu os olhos de uma vez só, e viu sua xícara cair de suas mãos e se despedaçar janela abaixo.

Um ônibus que precisou desviar de uma das vias principais da cidade que estava fechada, entrou na viela do seu bairro e se chocou com um pequeno carro que deu ré sem sinalizar. Ana desceu correndo as escadas e em prontidão chamou socorro. Tarde demais. Infelizmente a motorista do carro havia morrido na hora. Ana chorou. Em suas lágrimas, vários motivos contidos. Ela se sentiu ali da mesma maneira que se sentia toda vez que pensava em sua mãe: impotente e inconformada.

Após o primeiro momento de desespero e angústia, conseguiu concluir: a vida é frágil demais, é um sopro. É como a sua xícara de porcelana: podemos tentar segurá-la com as duas mãos, mas quando for o tempo, ela irá nos escapar. Não podemos controlar e nem prever o fim. Ana não conhecia a história daquela mulher, não sabia se ela cuidava da saúde, se tinha deixado família ou dívidas. Mas sabia que, independente de como resolvemos levar a vida, de uma maneira ou de outra, ela sempre acaba.

Ainda ficou ali, paralisada por mais alguns minutos. Ouvindo a sirene de ambulância se aproximando, as pessoas curiosas em volta... tudo em câmera lenta. E então, a natureza seguiu o seu ciclo e o sol se pôs como nos outros dias. O céu ficou alaranjado como Doralice mais gostava e coloriu um sorriso — ainda tímido — no rosto de Ana. Sua mãe, professora de alma e de vida, sempre dava um jeitinho de lhe ensinar uma nova lição de casa.


SUÉLEN EMERICK.
24 anos. Brasiliense que vê poesia no cinza do concreto. Jornalista que escreve por/com amor. Uso vírgulas e crases imaginárias pra contar histórias, e o coração pra vivê-las.

5 comentários:

  1. Que texto forte, incrível e emocionante.

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    1. Obrigada pelo apoio de sempre, Tha! <3 Te amo muito, irmã

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    2. Obrigada, Tha! Te amo muuuito, irmã! <3

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  2. Su, que texto intenso! Amei, e amei também a escolha da música!

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    1. Ah que linda, Mari. Obrigada pela leitura e pelo apoio. Que bom que gostou da escolha da música, sempre a faço com carinho. :)

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