O amor é brega. E quem não é?

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

O CARA DO 401


Não ligava pra maquiagem, mas era vaidosa e saía apressada pro trabalho todos os dias do apartamento onde morava, desde quando ganhou a primeira bicicleta ainda com rodinhas, rosa, florida da Barbie. Cresceu, mas não deixou de ser mimada! Vivia reclamando que os convites pra sair eram sempre superficiais, acoplados em open bar e sem quaisquer chances de virem a ser mais do que encontros causais. Se queixava que todo mundo tava namorando, menos ela! Resgatava frequentemente as lembranças ruins do que não deu certo com os relacionamentos anteriores, remoía as dores até sofrer de novo o que já tinha passado da conta, sabia que estava fazendo tudo errado, mas não mudava.

Com ele era diferente, possivelmente em seu subconsciente sabia que nesse caso, poderia rolar um caso ou até mesmo uma coisa mais séria, era rejeição todas as vezes que no elevador ele a convidava pra um café, pro cinema, pro aniversário da avó dele, ou uma volta pela orla depois do trabalho, já que ele sabia exatamente a hora que ela chegava e decorava sua rotina semanal. Ele a decorava com as melhores das intenções!

Ele não fazia ideia que na história de vida dela, ele apenas continuaria sendo seu vizinho desde a infância. No fundo ela deveria sentir algum prazer nessa coisa toda de só querer quem não a queria da mesma forma, masoquista não?! Meses se passavam e aquele cara do apartamento 401 ainda não queria acreditar que nada além do que já não tinha acontecido iria rolar, e a única coisa possível de dividirem era o porteiro do prédio em que moravam, os comentários sobre as taxas altas do condomínio naquele mês e de como a violência no bairro estava aumentando.

Ao mesmo tempo, ela seguia ranzinza com a vida e devolvendo sem perceber o que tanto queria! Sua rotina mecanizada gritava por encantos e romances, mas o medo de acreditar que o amor poderia então morar ao lado, de fato! Não permitia qualquer chance. Aquele café nunca foi tomado, esfriou a vontade de deixarem que o amor os esquentassem.

O tempo foi passando e ele, que explicitou cotidianamente seu desejo de dividir vida com ela, mudou-se. Mudou a forma de enxergá-la, caiu em si e com seu coração em liberdade percebeu que infelizmente alguns amores não foram feitos pra serem vividos, apenas doídos por uns e desperdiçados por medo de outros.

JOANY TALON.
Pra quem acredita em horóscopo é Canceriana, nascida em Araruama no dia 15 de julho de 1986, assistente social pela Universidade Federal Fluminense, e agraciada por Deus pelo dom de transformar em palavras tudo que sente, autora dos livros “Cotidiano & Seus Clichês” e “Intrínseco” e co-autora no livro “Pequenices Diárias”

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