O amor é brega. E quem não é?

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

ME ESPERA?



Está chovendo e, para variar, a cidade parou. Já andei dois quarteirões e nada. Nenhuma saída disponível para voltar para casa. O trânsito está um caos. Para todos os cantos que olho percebo o aborrecimento e a mesma urgência que estou tendo, de chegar e finalmente esquecer a rotina maçante que tem corroído qualquer vestígio de esperança. Hoje foi um dia daqueles, e você bem sabe que detesto reclamar. Insisto em enxergar os pontos positivos, mas fica difícil quando tudo se amontoa no meio fio e nada desata.

Percebi que ando ranzinza. Franzir a testa não tem custado tanto. E ando impaciente. Nunca fui boa com esperas — é verdade — mas de uns tempos para cá nem me esforço em disfarçar. Dá vontade de tomar o outro pela mão e dizer que é preciso arriscar um caminho, que cruzar os dois braços e contar com a sorte não será suficiente, mas daí me lembro de mim diante dessas ciladas em que tudo vale muito e me aquieto. Que direito eu tenho de apressar o passo alheio? Nenhum. Repito três vezes e me convenço de que o direito de experimentar as próprias escolhas é fundamental na hora de crescer.

Eu mesma demoro um bocado para aprender. Normalmente me rasgo duas vezes só pra ter certeza, e é nessas permissões masoquistas que fui me dando conta do quanto que a gente amadurece entre uma porta fechada e outra. Estou com tempo. O semáforo abre, cinco carros no máximo atravessam e logo ele fecha. Que tédio. As luzes da cidade inspiram a lembrar daquele Natal que passamos juntos no improviso. Lembra?

Abrimos mão de todo ritual só pra estarmos a sós. Sem a loucura da troca de presentes e aquele clichê todo envolvendo pessoas que só se bastam numa única data do ano. E deu saudade do porre de verdades que tomamos, das mãos entrelaçadas naquela varanda especialmente iluminada pra ocasião. Lembrei de recostar a cabeça no seu ombro e ver a vida passar enquanto fazíamos planos secretos traduzidos no olhar. Senti falta do refúgio. Do silenciar sem ter de justificar. Essa facilidade me encanta e você bem sabe que trocaria a algazarra toda para me caber no seu abraço.

Você chegou a ler a pesquisa que te enviei? Sobre a cura que abraçar demorado traz? E você que acreditava que essa necessidade de estender o namoro dos nossos corações era bobagem da carência. Que nada. Era paz dobrada e a certeza de que tudo daria certo.

Continuo falando sem parar e emendando um assunto no outro, espero que não se perca e que não se importe. A chuva apertou. Os raios estão iluminando o céu e pode supor que vontade de cobrir os olhos e me esconder embaixo do cobertor não faltam. Engraçado como somos forçados a lidar com as tempestades da vida e voltamos a ser criança quando o temporal ali fora começa. Tudo parece muito maior do que realmente é e a falta de controle me deixa desconfiada. Não poder prever os estragos me desespera.

Eu sei que está ficando tarde e que já me atrasei quase duas horas, sei que não tenho sido pontual com a gente e que nos últimos meses você foi a peça que mais desloquei na agenda, mas eu juro que estou tentando. Que tenho me esforçado. Talvez você se irrite outra vez e me deixe porta pra fora, que sequer visualize a mensagem que estou escrevendo, mas precisava deixar registrado que sinto sua falta. Ainda que eu tenha demorado um tempo para me dar conta do tanto que a rotina estava consumindo as nossas horas livres de amor, eu me importo com o que a gente escreve no travesseiro.

Me importo com seus medos, e me desdobro pra estar perto mesmo quando o relógio não adianta o nosso lado. Eu sei, eu podia ter saído mais cedo, me precavido sobre a chuva, podia ter antecipado a volta pra casa, ter passado naquela padaria que você gosta e ter te surpreendido com a mousse de chocolate, mas se eu tivesse feito tudo isso, não teria parado pra sentir o quanto seria sem graça viver sem você por perto pra dividir as preocupações e aqueles anseios bobos que só a gente entende.

Se eu tivesse mudado a rota, adiantado quinze minutos que fosse eu não teria sentido na pele a vontade de largar tudo só para me encontrar com você e contar que está tudo bem. Eu vou atrasar mais trinta minutos, mas se quiser, temos a vida adiante para combinar.

MARCELY PIERONI.
Escritora, administradora e chef de cozinha por escolha. Perdeu o medo de sair do lugar e desde que começou a publicar seus textos coleciona viagens onde pode abraçar seus leitores e estar mais perto daqueles que acolhem sua baguncinha. Palestra e conta histórias para crianças. É sonhadora de riso frouxo.

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