O amor é brega. E quem não é?

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

A MENINA QUE COLECIONAVA SORRISOS, DENTE-DE-LEÃO E HISTÓRIAS


❁ para ouvir enquanto lê: cataflor, Tiago Iorc.

Emily era de uma sensibilidade ímpar. Dessas que se necessário for, desviava do caminho para não atrapalhar o objetivo das formigas, que concentradamente carregavam pesadas folhas nas costas. Ela também adorava flores, mas não aquelas montadas em um buquê. Gostava de jardins amplos e cheios de vida, e também daquela florzinha guerreira que nasce em meio ao concreto, sabe? 

Para Emily, a natureza tem muito a ensinar pra gente. A sua maior paixão sempre foi o dente-de-leão. Como uma flor tão leve e frágil pode ter o nome do rei da selva? Ela sempre se perguntava isso. E com o tempo entendeu que a sensibilidade esconde em suas entrelinhas uma força verdadeira e íntegra.

Desde criança, ela foi uma menina observadora, que se encantava com os detalhes que a cercava. Muitos a chamavam de sonhadora, mas na verdade, ela só tinha um jeito diferente de olhar a vida -com mais otimismo e um tanto de sorriso nos lábios. Ah! E uma porção à la carte de gargalhadas escandalosas. 

Emily cresceu, mas continuou carregando um coração gigante que não se apequenava mesmo com a convivência inevitável com pessoas mesquinhas. Ela amava o nascer e por-do-sol porque ele a fazia -antes de tudo - seguir grata desde as suas maiores dádivas até os pormenores.  

Emily vivia como se fosse primavera todo os dias do ano. Seu look preferido era um bom vestido longo florido, cheio de cor e vida. Vida! Era isso que ela deixava em todos os lugares que passava. E olha que foram muitos! Emily era uma andarilha, apaixonada por histórias novas e discos antigos. Livros então? Colecionava vários clássicos. Mas gostava mesmo era de colecionar sorrisos sinceros. Sabia logo de cara reconhecer um e dificilmente o esquecia ao longo dos anos.
Se engana quem pensa que ser sensível é apenas chorar por absolutamente tudo, inclusive com a inauguração do supermercado ou com aquele comercial com família reunida na mesa. A sensibilidade envolve a capacidade de percepção ao outro e suas necessidades. Até mesmo quando a realidade dele não interfere diretamente na nossa.

Emily costumava dizer que pessoas sensíveis não são compreendidas pela maioria. E pensando bem, infelizmente ela tinha razão. Sensibilidade no meu dicionário, deveria ser sinônimo de empatia. E ela é rara. Não deveria ser, mas é pra poucos. Poucos que se dispõem a sentir com o coração do outro, que abrem mão vez ou outra de benefícios próprios em função do bem comum, que lutam uma luta que não é sua e respeitam a causa alheia. Sensibilidade é ser simples. É ser humano - como na nossa essência.



SUÉLEN EMERICK.
24 anos. Brasiliense que vê poesia no cinza do concreto. Jornalista que escreve por/com amor. Uso vírgulas e crases imaginárias pra contar histórias, e o coração pra vivê-las.

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