O amor é brega. E quem não é?

terça-feira, 18 de outubro de 2016

OFFLINE


 ❁ Ouça enquanto lê: Engenheiros do Hawaii - Somos Quem Podemos Ser  

Cabelo repicado com as pontas cor de rosa, unhas de gel enormes e pontiagudas, piercing fake no septo. Tudo pronto pra postar a primeira selfie do dia. Alice, ou @aliunicornio como é mais conhecida na internet, acumulava seguidores em suas várias redes sociais. A cada postagem, eles triplicavam como uma mágica. Nem Alice sabia de onde exatamente surgia tanta gente nova.

Separou um livro que não estava lendo, mas tinha uma capa dura bem bonita que ia combinar com sua caneca descolada. Encheu de café pra preparar o cenário da foto "perfeita". Alice nem sabia fazer café muito bem, ficavam sempre intragáveis e eram descartados depois do clique.

Muita gente do outro lado do smartphone, daria tudo pra ter a vida de Alice, sem imaginar que não era absolutamente nada daquilo. Nem ela queria ser quem era, por isso se escondia atrás do username e tantos outros apetrechos. Era um perfeito personagem de si mesma.

Recebeu uma proposta financeiramente tentadora para fazer o seu primeiro "publi post". Ou seja, aproveitar o número de seguidores pra fazer propaganda de determinada marca e ganhar uma boa grana. Para isso teria que usar uma série de sandálias de plástico de uma marca que sempre detestou. Elas machucavam o dedo mindinho, conseguiam arrancar até o esmalte mais velho das unhas do pé e sem contar que dava chulé pra caramba. Mas eram lindas, coloridas e enlouqueciam o público teen. Alice não tinha nada a perder e acabou topando. Seria como fazer o que já faz todos os dias, só que dessa vez ganhando — e muito bem — pra isso.

Os posts bombaram. Alice tinha realmente jeito pra coisa. E depois dessa, veio uma outra proposta de uma nova marca, mais outra e assim por diante. O que era um passatempo pra Alice, virou o seu mais novo "ganha pão". As propostas de viagem eram muitas e, por isso, ela teve que trancar a faculdade de Direito — que já detestava mesmo e fazia por obrigação —.

Dona Telma, a mãe de Alice, se preocupava com o futuro da filha, mas não negava que desde que essa reviravolta começou, as contas em casa deixaram de ser um problema. As duas viviam sozinhas e não podiam contar com a pensão do pai que só aparecia vez ou outra. Dona Telma era diarista, conseguia até um dinheiro considerável, mas pra isso trabalhava exaustivamente. E Alice cursava direito, tinha só a sua bolsa e um estágio. Apesar de não entender muito a nova profissão da filha, agora elas podiam chegar no final do mês sem tantos apertos.

Mesmo com todo o aparente sucesso, Alice não era feliz. Quando sorria era para as fotos do instagram e ponto. Também não tinha muitos amigos, o que era irônico pela sua quantidade imensa de seguidores. Os poucos amigos recentes que tinha feito na faculdade quase não apareciam mais. O mundo do Direito era muito distante da sua nova realidade, e a maioria deles já estavam na fase antissocial do TCC.

Alice voltou de mais uma viagem de Londres patrocinada por uma famosa empresa de intercâmbio. Seu inglês estava em progresso e isso era o máximo que ela conseguia se interessar em estudar no momento. Colocou a mala em cima da cama e deitou-se por alguns segundos de olhos fechados. Ela adorava viajar, mas desfazer malas era o seu maior pesadelo. Aliás, até viajar não estava sendo tão empolgante como no começo. Antes era como um escape, agora nem isso funcionava mais. O cerco estava se fechando e Alice se via, vez ou outra, tendo que confrontar a si mesma.

Sentou-se na cama e começou a encarar sua prateleira. Os livros eram tantos que não cabiam mais no móvel. Estavam perdendo sua função principal: decorar a parede. Resolveu separar então alguns para doar — até porque uma boa ação sempre dá ibope na internet. Começou a vasculhar um por um. Tinha alguns livros que ainda estavam na caixa. Abriu cuidadosamente a última embalagem que era presente de um leitor e estava guardada há meses — ou melhor, esquecida. Deu de cara com um livro de cor alaranjada e com um curioso bigode desenhado na capa. O título era "Toda Poesia" e o autor Paulo Leminski. Pra ela, Leminski era tipo caviar, ela sempre tinha ouvido falar, mas nunca experimentado. Começou a folheá-lo aleatoriamente e deparou-se com o poema "Se incenso fosse música".

"Isso de querer ser
exatamente aquilo
que a gente é
ainda vai
nos levar além."

Alice parou nesses primeiros versos. Dessa vez não por desinteresse, mas porque tais palavras falaram com ela de maneira inesperada. Seus olhos já cansados com o fuso horário, pesaram ainda mais. De repente uma lágrima brotou como nascente em suas pupilas e se alojou ali, meio sem força para desaguar pelo rosto. Naquele momento, ela sentiu uma espécie de saudade da sua vida offline. Saudade de não ter que mecanizar todo o seu dia em uma linha do tempo. Saudade de não ser vista como uma vitrine virtual apenas.

A lágrima caiu em câmera lenta sob a página, molhando levemente as letras daquele poema. Se Leminski estivesse vivo, diria que elas vieram pra regar as hortênsias e gardênias que moram naquelas linhas escritas por ele. Alice fechou o livro, o encarou como se fosse gente e depois apertou contra o peito — simulando um abraço. Dessa vez, as lágrimas caíram mais leves e Alice chorou compulsivamente — como se tivesse lavando a alma.

SUÉLEN EMERICK.
24 anos. Brasiliense que vê poesia no cinza do concreto. Jornalista que escreve por/com amor. Uso vírgulas e crases imaginárias pra contar histórias, e o coração pra vivê-las.

0 comentários:

Postar um comentário