O amor é brega. E quem não é?

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

FALTA ALGO


Ela acordou.

Olhou para o lado e apenas viu o vazio. Levantou-se, mas nem acendeu a luz. Já fizera esse caminho no escuro tantas vezes que não corria o risco de tropeçar em alguma coisa. Eram cinco da manhã. Há semanas que ela não conseguia dormir direito, talvez fosse o vazio, talvez não.

Foi na cozinha, ligou a cafeteira e foi tomar banho. Demorou o que parecia horas debaixo do chuveiro, colocou a primeira roupa que achou no guarda-roupa e, quando olhou no relógio, ainda eram 5:30 da manhã.

Tomou o seu café lentamente, checou os emails, respondeu alguns, ignorou outros. E nada do tempo passar, ainda faltava muito até às 9 horas — horário que tinha que chegar no trabalho. Então lembrou-se de que era sábado, seu dia de folga. Um dia que ela vinha evitando; sempre arrumando algum trabalho, alguma ocupação que a fizesse esquecer que dia da semana era.

Voltou ao quarto e dessa vez acendeu a luz. O quarto parecia mais vazio apedar de quase não ter espaço ocioso nele, mas apenas parecia que algo não estava.

Sábado. Este já era o quinto sábado, este ela já não tinha desculpas para fugir da realidade. A dura realidade, a de que não iria tomar café no parque, de que não iria assistir filme e tomar um vinho, ou de sair apenas para "tomar um ar".

Ela poderia fazer tudo isso, mas já não teria o mesmo significado, a mesma "magia" de antes.

Ela tentava não pensar, não pensar que estava sozinha. Tudo bem que ela tinha os amigos, os familiares, os colegas, os vizinhos, ela tinha todos de quem precisava naquele momento e até alguns a mais. Mesmo assim ainda faltava algo, uma parte que nunca mais poderia voltar.

Cinco sábados. Esse era o número de sábados desde que ele partiu. E hoje, ela apenas se sentiu sozinha, olhou o porta retrato dos dois. Apenas olhou, apagou a luz e saiu.

                                                 ❁
TAMARA PINHO.
Jornalista por amor (e formação), mineira, e sonhadora como uma boa pisciana. Vivo na internet, então é fácil me achar. Acredito que a escrita é libertadora e nos possibilita viver em diversos mundos ao mesmo tempo.

1 comentários:

  1. Que delícia! Adorei esse estilo de conto mais compacto. E não perdeu em nada a beleza <3

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