O amor é brega. E quem não é?

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

EU AINDA SOU NÓS DOIS



Na verdade, acho que nunca deixei de ser. Ainda sou parte daquele romance precoce que tivemos, sou pedaço daquela esquisitice sentimental, daquele amar sem nem saber qual é a do amor. Eu ainda sou nós dois com as mãos entrelaçadas, marcando um futuro no calendário da esperança. Ainda sou aqueles planos mesquinhos que a maturidade não deixa mais inventar, sou a gente enrolados nos lençóis com pizza e pipoca, falando bem e mal dos protagonistas na televisão.

Eu ainda sou nós dois nos pingos de chuva que deslizam pela sacada — e brincam de fazer música estalando com pausas no chão. Ainda sou nós dois nas noites quentes de verão, onde a insônia insiste em se fazer presente, ao estender da madrugada, no aroma salgado de suor misturado com o teu perfume barato — que eu nunca esqueci — ao fim de um beijo longo. Ainda sou esse amontoado de sentimentos aprisionados num coração frágil e retalhado que não encontra o seu valor.

Não deixei de ser aquela que se importa e sente muito mais do que, de fato, realmente deveria. Ainda sou a garotinha sensível que doa amor, sem se importar com o que pode ser retribuído. A mesma dona de loucuras ridículas, por quem não faria algo que sequer soasse normal. É. Ainda sou nós dois nas brincadeiras infantis, nas gargalhadas livres de obrigações, no tempo em que a maior preocupação era quantas horas ainda faltariam para podermos nos ver novamente.

Eu ainda sou aquela boba que dividia o banco da praça, para flertar como um pedreiro e achar tudo aquilo bonitinho, apesar de ridículo. Ainda sou nós dois, a mesma apaixonada pelo teu sorriso traiçoeiro, pela merda que era sentir aquela cócega gostosa, da tua quase-barba, na minha bochecha. Ainda sou nós dois, ainda sou esse sentimento brega que não se dissipa de forma alguma. Essa coisa que não sai de mim passem mil anos, essa mania idiota de permanecer no que já foi há tempos. Ainda sou o fóssil desse romance inacabado que insiste em me fazer encontrar vestígios.

Ainda sou o dedo enrolado no teu cabelo molhado cheirando a xampu, logo depois do banho, sou a carícia pelos ossinhos da tua coluna que te arrepiava o corpo todo. Sou o beijo inesperado que te deixava zonzo no meio da noite, o corpo que se encaixava perfeitamente no teu abraço. Sou o sorriso entre um beijo tímido que deixava o ar tão mais leve e o exato segundo ainda mais significante. Ainda sou nós dois do jeito mais errado que eu posso enxergar, ainda sou momentos que minha mente não quer abandonar.

Eu ainda sou nós dois e às vezes isso parece bom, mas na maioria eu queria é exterminar os seus pedaços de mim. Queria poder apertar uma tecla e deletar sua existência e todas essas lembranças boas que me atormentam, queria não ser nós dois. Às vezes queria mesmo deixar de ser o que já foi faz tempo. Só que eu ainda sou nós dois e, na real, a verdade verdadeira é que, bem no fundinho, eu espero nunca deixar de ser.

GABRIELLE ROVEDA.
1997. Escritora de gaveta, bailarina por paixão, sonhadora sem os pés no chão e modelo só por diversão. Do tipo que vive mais de mil histórias pelas páginas dos livros, daquelas que quer viajar o mundo só com uma mochila nas costas, do tipo que acredita no amor a todo custo e dispensa de imediato pessoas sem riso fácil. Não sabe fazer nada direito, mas insiste em acreditar que o impossível é só uma daquelas palavras que vão cair em desuso e se vê tentada a tentar de tudo. Viciada em café e em escrever cafonices sobre si e o amor sem dizer nada ao certo.

4 comentários:

  1. Que texto cheio de detalhes lindos. Amei a narrativa, uma delicinha de ler. Parabéns <3

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  2. eu fui e voltei várias vezes para comentar esse texto. Mas não sei dizer. Só sei sentir.

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    1. Só sei sentir com esse comentário. Mafê diva <3

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