O amor é brega. E quem não é?

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

DIÁLOGOS DE APARTAMENTO


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Valéria deitou sobre o peito de Pedro — seu lugar preferido no mundo. Os dois estavam casados há um ano e o período de adaptação não estava sendo muito fácil. Pedro era engenheiro e assinou contrato com uma construtora para acompanhar uma obra fora da cidade. Ia e voltava todos os dias, mas pela distância acabava chegando já tarde e passava a maior parte do tempo longe da esposa. Valéria por sua vez, era professora e trabalhava em uma escola relativamente perto, mas também tinha muitas atividades extracurriculares. Sem contar que, com a ausência do marido, mesmo com o auxílio de uma diarista quinzenal, as atividades domésticas ficavam mais por sua conta.

Era ali nas poucas horas que desfrutavam juntos antes de dormir, que os dois tinham tempo hábil pra dialogar e matar a saudade gostosa que ficava de todo o dia distante.

— Amor, eu tô com uma dor forte no peito. — disse Valéria enquanto recebia um cafuné do marido, que se espantou um pouco com a notícia.

— Uma dor literal, amor?

— Não sei exatamente, bebê. É uma espécie de aperto, de angústia...

— Tipo aquilo que você sentiu alguns dias antes do seu pai falecer?

— É, amor. Por aí mesmo. Aquela sensação horrível sem nem saber o motivo. Tipo um pressentimento ruim.

— Calma, amor. Não vai ser nada dessa vez. Vem cá.

Disse Pedro enquanto apertava bem forte e carinhosamente a sua mulher junto ao peito e dava um afago nas costas —  que ela gostava tanto.

— Aqui com você eu me sinto confortável e segura.

Pedro beijou os cabelos de Valéria e em seguida pegou o controle remoto para ligar a televisão.

— Vem, vamos assistir um filme pra distrair até o sono chegar, amor.

Enquanto zapeava pelos canais, um comercial da campanha do Outubro Rosa chamou atenção de Valéria.

— Lá na escola estamos preparando uma ação pras mães em prol do outubro rosa. Eu acabei discutindo com a coordenadora porque dei a sugestão da ação ser estendida pros pais e ela não aceitou. Disse simplesmente que não achava apropriado. Acredita? Achei um absurdo!

— Você e suas ideias revolucionárias, amor. Parece que o sistema educacional ainda não é preparado pra elas. Talvez a sociedade não seja. Mas sabe de uma coisa? Elas foram um dos motivos deu me apaixonar por você ainda na época da faculdade.

— Nós sempre fomos tããão diferentes, né? Muita gente apostou que não daria certo. E agora estamos aqui. Mas sabe, amor. Eu nem vejo isso como algo revolucionário assim. É simples! E se os casais se incentivassem e fizessem juntos o autoexame?

— Você simplifica a desconstrução, amor. E quer saber? Você tem razão. Vamos fazer juntos agora?

— Vamos!!

Os dois aproveitaram a falta repentina de sono e foram juntos para o espelho do banheiro, que era o mais amplo do apartamento. Valéria fez o autoexame com certa rapidez pela prática. Era algo rotineiro, ela não esperava apenas outubro para realizá-lo. Olhou pra Pedro e ele parecia meio perdido e confuso.

— Não tenho a menor ideia de por onde começar, amor. Nunca fiz isso. resmungou Pedro.

— É normal, amor. Infelizmente a maioria dos homens não o fazem. Talvez porque a porcentagem de casos é bem menor pro sexo masculino e a divulgação também acaba sendo.

Valéria pegou o celular que estava próximo e começou a pesquisar sobre. Até mesmo informações claras sobre o autoexame masculino eram difíceis de encontrar. Depois de minutos de uma busca minuciosa, ela viu um site de credibilidade que trazia um passo a passo super didático e confiável. Então entregou o celular pra Pedro. Ele realizou o autoexame e de repente sua expressão congelou. Olhou pro celular e pro espelho. Pro celular e pro espelho. Pro celular e pro espelho. Repetidas vezes. Até que Valéria o interrompeu:

— O que foi, meu amor?

— Meu mamilo esquerdo se assemelha a esse da foto do autoexame. Está retraído e descascando. OLHA!

Valéria pegou o celular das mãos de Pedro e começou a observar a foto.

— Vem cá, amor. Deixa eu olhar mais de perto.

Sugeriu Valéria, ainda sem querer acreditar.

— É exatamente igual, amor.

Dessa vez na voz de Pedro já havia uma preocupação nítida. Valéria ficou alguns minutos sem reação e um silêncio doloroso pairou entre o casal.

— Amor, pode não ser nada. O autoexame ainda é só o primeiro passo do processo. Amanhã mesmo nós vamos ao especialista tirar todas as dúvidas, tá?

Disse Valéria tentando manter a racionalidade, embora os olhos já estivessem visivelmente marejados.

Pedro permaneceu em silêncio e abraçou a esposa pele a pele. Os dois estavam despidos de segredos e cobertos pela intimidade que a ausência de palavras proporciona. Tudo que Valéria queria dizer pra encerrar aquele diálogo era "Independente do que aconteça, estarei ao seu lado. Isso não vai mudar". Mas as frases não saíram. E pensando bem, nem precisavam. Aquele abraço dizia tudo. E era exatamente ali o porto seguro, mesmo se as notícias ruins viessem. Mesmo se o mundo lá fora desabasse em caos infinito, era ali, naquele pequeno banheiro de apartamento, que eles tinham a certeza um do outro.

SUÉLEN EMERICK.
24 anos. Brasiliense que vê poesia no cinza do concreto. Jornalista que escreve por/com amor. Uso vírgulas e crases imaginárias pra contar histórias, e o coração pra vivê-las.

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