O amor é brega. E quem não é?

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

DE VEZ EM QUANDO PALAVRAS SÃO DISPENSÁVEIS.


Ficou pensando em tudo o que deveria ter dito e não disse. Oportunidade não faltou, já a coragem... Se acostumou com a auto sabotagem. Criava um infinidade de empecilhos para não dar o braço a torcer e dar importância demais a quem fazia flutuar outra vez. Vivia inquieta. Coração na boca, pensamento longe.

Pensava no quanto aquele abraço era bom. Na facilidade que ele tinha de fazê-la se caber por inteiro. No arrepio bom que percorria a espinha e contornava no rosto aquele sorriso largo, de quem está transbordando tudo que vem sentindo. Nos dedos dele entrelaçados aos seus, nas palavras bonitas que ele dizia em voz alta de forma pausada — ela podia desfrutar assim de seus efeitos e de toda sua verdade. Pensava nas promessas que ele deixou de fazer. Era tudo improvisado. Surpresa atrás de surpresa. Rotina pra quê? Tédio não tinha vez. Encontro que não cabia na agenda, saudade que ganhava espaço no coração.

Sabia que seu riso fácil lhe correspondia. A ausência de palavras também — logo ela, que era sempre tão tagarela. Faltava repetir em voz alta, de forma gentil, o quanto seus dias haviam ficado especialmente melhores quando sua cabeça podia aninhar-se em seu peito. Coração passou a bater de maneira apressada, como se a qualquer momento fosse saltar pela boca. Escreveu cartas que o tempo deixou empoeirar. Quis espalhar bilhetes e desistiu na última hora. Vai que o tal moço se assusta com a declaração transparente da moça. Recolheu seu amor como quem guarda a última pétala da flor.

Podia ter dito tantas coisas e emudeceu. Seus braços não o soltavam. Ficavam em volta do seu pescoço enquanto o olhar baixo continha o tanto de querer bem. Podia ter convidado para um café, ensaiado alguma volta num parque qualquer da cidade. Podiam ter ido assistir o filme que ele tanto queria, mas não. Ficaram sentados. Cúmplices. Confidenciados pelo olhar de quem ama. Quem ama cuida. E ela queria cuidar. Da roupa espalhada, das manias desajeitadas, de toda sua vida bagunçada.

Queria ser o motivo que o impulsiona a sair da cama; a certeza que ele brinda em meio aos seus desencontros; o sorriso que lhe acolhe; a mão que lhe resgata. Queria ser o colo a aquecê-lo nas madrugadas frias; a companhia indispensável para as manhãs de primavera. Ser o seu refúgio. O olhar sereno; a resposta que preenche todos os seus porquês. A chuva que embala o sono tranquilo; a parceria de vida que faz tudo chegar ao alcance das mãos. Cuidar dos ferimentos ainda abertos; ser a costura de esperança de seus anseios. Faróis para os passos ainda desconfiados. Cuidar para que juntos pudessem alçar novos vôos. Descobrirem novas afinidades.

Experimentarem da loucura comum que fazia acreditar que aquele encontro por acaso estava mesmo pré-destinado. Ainda que pudesse estar em outros cantos, sonhando outros sonhos, abraçando outras vontades, sabia que era ao lado dele que tudo se findava. Sem espremer pra caber. Ficou pensando em tudo que poderia ter dito e entendeu que dizia tudo inúmeras vezes ao dia, ao estar por perto.

MARCELY PIERONI.
Escritora, administradora e chef de cozinha por escolha. Perdeu o medo de sair do lugar e desde que começou a publicar seus textos coleciona viagens onde pode abraçar seus leitores e estar mais perto daqueles que acolhem sua baguncinha. Palestra e conta histórias para crianças. É sonhadora de riso frouxo.

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