O amor é brega. E quem não é?

terça-feira, 4 de outubro de 2016

COM O AMOR NÃO SE BRINCA

suelen-emerick


— Açaí ou sorvete?
— Açaí. Com cupuaçu, óbvio.
— Pipoca de panela ou microondas?
— De Panela. Com certeza e com manteiga.
— Doce ou salgado?
— Doce. Mil vezes: doce!
— Praia ou cachoeira?
— Cachu.
— Woody Allen ou Almodóvar?
— Woody Allen!!

Daniel e Juliana estavam numa fase muito gostosa do relacionamento. Prestes a completar um ano de namoro, já conheciam as manias e preferências um do outro. E adoravam fazer esses joguinhos de perguntas — e tantas outras brincadeiras bobas que só os dois entendiam. Sabe aquele casal bonito de se ver? Que a gente olha na esquina da rua gargalhando um pro outro e pensa: "Esses aí vão ser felizes pra sempre". Ou simplesmente aquele casal que ainda enche nossos olhos e dá uma pitada de esperança que o amor ainda existe, mesmo nesse mundo de desapego. Parece até aqueles casais de seriado ou de comédia romântica que a gente acha que é só ficção — até viver um.

O começo não foi tão fácil assim. Tinha insegurança e ciúme de ambos que vieram de uma série de relacionamentos fracassados. Abro um parênteses aqui, porque lembrei do meu diálogo preferido do livro "As vantagens de ser invisível":

— Por que pessoas boas namoram pessoas ruins?
— Nós aceitamos o amor que achamos merecer.

Taí, muita gente boa não sabe que é tão boa assim. Aí se mete em relacionamentos meia boca e quando encontra alguém legal, se fecha por receio de sofrer e deixa passar. Ainda bem que Daniel e Juliana não seguiram essa regra do coração partido. Se tem algo que eles sempre fizeram desde o primeiro dia que se encontraram foi ser quem eram. Sem máscaras. E não é que os dois combinaram de ser assim, mas a identificação era tanta que a transparência veio sem escolha. Os dois com suas dores passadas, mas quando viram já estavam tentando outra vez. Bateu de primeira. E existe esse tal de amor à primeira vista?

Dani e Júlia costumavam dizer que se apaixonaram desde o primeiro encontro, mas não sabiam disso. Os dois, anteriormente, achavam a maior furada do mundo esse papo de amor à primeira vista. Coisa de filme açucarado e com o roteiro fraco. Mas hoje admitiam que com eles aconteceu. Quando se olharam, algo diferente os invadiu. A gente às vezes tem medo de dizer que é amor, principalmente quando fomos machucados antes. Mas não tem jeito, o amor é algo que não se confunde com outro sentimento qualquer. A gente pode sim amar de primeira e continuar se apaixonando todos os outros dias. Juliana por exemplo, se apaixonava todo dia quando Daniel fazia aquele macarrão com salsicha pra esperar ela chegar do trabalho. Daniel se apaixonava, ainda mais, todos os dias em que Juliana escrevia algum texto novo ou, sei lá, simplesmente dava aquele sorriso solar que só ela tinha.

Tem quem não se apaixone logo de cara, e acredite que o amor vem aos poucos. Também é possível, também é bonito, também é amor. Não deixa de ser. Não existem regras pra amar, afinal o amor não é um jogo. É justamente esse o ponto crucial. O amor não é uma partida (em nenhum dos sentidos da palavra) e não deve ser tratado como uma. Daniel e Juliana resolveram não jogar um com o outro desde o começo, entraram em campo de cara limpa, apesar de no coração ainda ter umas marcas. Hoje, eles faziam jogos sim. Como, por exemplo, guerra de cócegas e quem perdia lavava a louça do jantar. Geralmente Juliana perdia. Também brincavam de adivinhação da cor de lingerie e quem perdia arrumava a cama na próxima manhã. Geralmente Daniel perdia.

A intimidade dos dois era tanta que quem não os conhecia achava que já estavam juntos há muito mais tempo, desde a adolescência. Mas não, essa é a vantagem de assumir que é amor e se entregar com tudo. A gente não perde tempo tentando se convencer que não é, tentando relutar contra o sentimento. Pelo contrário, a gente ganha tempo aprendendo sobre o outro, conhecendo e amando sempre um pouquinho mais. Às vezes odiando um pouco também. Principalmente quando Daniel fica monossilábico, né Juliana? Ou quando Juliana chora exatamente por tudo, né Daniel? Essas coisas acontecem. Nem tudo são flores. Mas tudo bem, Ju não gostava mesmo de receber buquês. Daniel já aprendeu que pra agradá-la precisava mais do que presentes previsíveis.

Se você anda meio descrente do amor e tá lendo esse texto, deve estar pensando que não é tão simples assim, né? Se você já se entregou várias vezes, mergulhou de cabeça e acabou se machucando, vem cá. Eu sei o quanto dói. Mas quando chegar a hora, você vai mergulhar de novo, e dessa vez não vai te faltar o ar. Relaxa, essa hora vai chegar e você vai saber exatamente quando. Você vai sentir. A reciprocidade ainda existe, mas é rara. Afinal, o amor só é verdadeiro e saudável se a tiver em sua composição. Com o amor não se brinca, e quando se acha alguém especial, não compensa jogar fora.

SUÉLEN EMERICK.
24 anos. Brasiliense que vê poesia no cinza do concreto. Jornalista que escreve por/com amor. Uso vírgulas e crases imaginárias pra contar histórias, e o coração pra vivê-las.

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