O amor é brega. E quem não é?

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

TÔ CHEGANDO, PAI.


Eu sempre fui muito calado. Na minha. Esse negócio de conversar com várias pessoas ao mesmo tempo nunca me encheu os olhos. Talvez fosse um tanto quanto antiquado, ainda mais levando em consideração que eu estava no auge da juventude. Eu não me isolava completamente do mundo. Nem podia. Minha família é extrovertida demais para deixar quem quer fosse quieto no seu mundo particular, mas nas horas vagas eu escolhia meu quarto como santuário para ler os livros que gostava e passar o tempo. Vamos dizer que minha vida era bem normal. Fase de vestibular, você bem sabe como é: estudo, mais estudo, mais pressão de tudo que é lado. Difícil é conter os ânimos. Eu já estava encaminhado. Já havia escolhido o curso que iria prestar — arquitetura — e estava me dedicando para a Fuvest daquele ano.

Mas nem tudo na vida acontece da forma que a gente espera. De repente tudo muda de lugar o que estava certo vira do avesso. Lembro como se fosse agora a notícia da morte do meu pai. Fiquei por alguns segundos sem respirar. Só me sentia disposto a chorar. Chorei calado durante horas. Um filme passava na minha cabeça. Me lembrei dele correndo comigo pelos parques da cidade, das tardes de domingo regadas a futebol e gargalhadas com sabor de pipoca. Lembrei dele me incentivando a nunca desistir, das conversas intermináveis que escorriam a madrugada e me faziam explorar, ainda que do meu quarto, universos particulares. Lembrei dos conselhos que ele ofertava, da preocupação de me ver sendo alguém nessa vida. Do exemplo que ele se esforçava em ser. E naquele instante me senti vazio. Perdido. Totalmente atormentado pela morte. Íamos comemorar as notas altas e o emprego novo da minha irmã naquela noite, mas no segundo seguinte me vi com os planos mudados pelo destino e, ao invés de escolher um agasalho para o jantar, escolhi o casaco preferido dele para ir me despedir do meu herói.

Daquele dia em diante tudo mudou. Nada permaneceu no lugar. Dentro de mim uma sensação esquisita de vazio ganhava forma de saudade e vez em quando de descrença. Me questionei inúmeras vezes o porquê. Achei injusto algumas outras tantas. Me recolhi. Se antes eu não saia de casa, agora menos ainda. Me afundei na falta que sentia de tê-lo por perto. Ninguém estranhou. Era natural. Para muitos eu estava vivendo o luto da forma que encontrei. Mas passados três meses tudo ficou insustentável e a saída que encontrei para acabar com aquele sofrimento era ir de encontro ao meu velho.

Pensei na dor que iria causar, mas o desespero era ainda maior. Não era egoísmo. Não deixei de pensar um só segundo na tragédia que iria deixar para ser digerida por meus entes queridos. Imaginei as perguntas que se fariam. Provavelmente tentariam encontrar culpados para o rumo que escolhi trilhar. Não foi algo fácil de decidir, mas foi preciso. Eu estava sufocado. Sem rumo. Sem expectativa de uma vida mais leve. Eu me via sozinho e isso não me fazia bem. Eu queria tanto ter tido tempo de viver outras coisas, de ter construído pontes em busca de meus sonhos. Queria mesmo ter feito diferença, não por mim, mas por ele, que se despediu sem ter de fato algo que o fizesse se orgulhar de mim, de quem eu era. Foi então que, numa segunda-feira acalorada de primavera, escrevi um bilhete me despedindo:

“Eu tentei. De todas as formas possíveis e impossíveis. Tentei dar continuidade aos meus sonhos, aos meus estudos, a tudo que me comprometi viver, mas não pude. O medo foi embora. A raiva também. Mas não vejo motivos para continuar. Me sinto sozinho, esquecido num canto qualquer dessa vida maluca que nos engole com suas rotinas puxadas e essa falta constante de tempo. Nós sabemos que não tem sido fácil lidar com o vazio da ausência e por isso quis deixar claro que vocês fizeram por mim o que podiam, me perdoem pelo excesso de silêncio, por não deixar pistas, no fundo não queria correr o risco de mudar de ideia. Não queria que me fizessem desistir do caminho que escolhi para mim. Espero que um dia possam me perdoar. E acreditem, apesar de toda dor que essa passagem pode nos deixar, eu estarei bem.”

Deixei o bilhete em cima da escrivaninha, me encaminhei para a cozinha, cumprimentei minha mãe com o “boa noite” de sempre, esbocei que iria pegar algo para comer e decidi terminar tudo da forma que me sentia: sufocado por sentimentos que não podia digerir. Talvez eu tenha sido fraco. Não sei. Talvez eu devesse ter procurado mais pessoas para conversar. Me abrir. Contar como eu me sentia. Mas agora é tarde e a vida segue do jeito que deu.

MARCELY PIERONI.
Escritora, administradora e chef de cozinha por escolha. Perdeu o medo de sair do lugar e desde que começou a publicar seus textos coleciona viagens onde pode abraçar seus leitores e estar mais perto daqueles que acolhem sua baguncinha. Palestra e conta histórias para crianças. É sonhadora de riso frouxo.

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