O amor é brega. E quem não é?

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

SOMOS NOSSA PRÓPRIA CASA


Fazia um frio daqueles que a gente só deseja chocolate quente, edredom e Netflix. Beatriz havia se mudado há poucos meses para São Paulo e ainda estava se adaptando ao novo clima da cidade da garoa. Era sábado a noite, dia sagrado de sair com os amigos pra falar besteiras e esquecer a semana ruim. Era o que normalmente faria se ainda morasse em sua antiga casa, em Belo Horizonte. Ela cresceu em Beagá, era cercada de amigos de infância, do ensino médio, da faculdade e até do ponto de ônibus. Sem contar a família enorme e cheia de primos. Bia era desse tipo de pessoa que todo mundo gosta de ter por perto, sabe?

Mas, desde que sua rotina mudou completamente, Bia não tinha conseguido inserir novas pessoas em seu ciclo social. Até tinha alguns colegas do trabalho novo que a tratavam super bem e amavam seu sotaque mineiro, mas eles sumiam após o expediente. Era cordialidade e coleguismo, estava longe —bem longe — de ser amizade. Mas tudo bem, a sua maior preocupação agora era aprender a cozinhar igual aquele canal do youtube, pagar o aluguel e chegar ao final do mês sem tantos apertos. Ah! aprender a usar o metrô e todas as suas mil cores e linhas seria bem útil também.

Morar sozinha não estava sendo uma tarefa muito fácil. Ela sempre imaginou apenas a parte boa da independência, privacidade e liberdade, mas esquecia que junto com tudo isso vinha também responsabilidade pra caramba no pacote.Tudo bem que andar semi nua pela casa e ouvir música no volume que quisesse era uma vantagem das boas, mas sentia falta de alguém falando pra ela não andar descalça,e da comida quentinha que sua mãe fazia. Pizza dormida no café da manhã é uma delícia, mas não se for mais de três vezes na semana. Tem uma hora que você quer arroz branco fresco fumaçando e qualquer outra coisa que não pareça com a sessão de congelados do supermercado. Principalmente o pão de queijo. Pão de queijo daquele freezer, definitivamente não era pão de queijo, uai!

A Beatriz de alguns meses atrás só queria dizer pra Beatriz de agora que café de coador de pano é incomparavelmente melhor que os das cápsulas da Dolce Gusto. Aliás, seria tão bom se a gente pudesse se dar esses auto-conselhos, né? Acho que no final das contas, ninguém quer a gente melhor do que a gente mesmo. Não é egoísmo, é porque a gente se conhece tão bem, que só nós sabemos aonde realmente falhamos — por mais que muitas vezes a gente não queira admitir — e aonde podemos melhorar.

Talvez tudo tivesse sido um bocadinho mais fácil se Beatriz se ouvisse com a mesma empolgação que ouve uma canção de The Strokes, sua banda de indie Rock preferida. Ela sentia muita falta de ir nos pub's de Beagá com os amigos e cantarolar bem alto, sem vergonha do seu inglês meio enrolado. Mas se tem um lado positivo nisso tudo e que a fez refletir bastante, é que nós somos a companhia que nunca podemos abandonar. Por mais queridos que sejamos, por mais amigos que tenhamos e por mais que a convivência com a família seja a melhor possível, não podemos nos mudar da gente. Somos a nossa morada permanente. Não pagamos aluguel e nem fazemos financiamento.

Claro que podemos, — e aliás, devemos! — mudar alguns móveis de lugar, nos adaptar, e não ter 'aquela velha opinião formada sobre tudo'. Mas de nada adianta a gente ser querido por todos, se não soubermos conviver com a gente mesmo, com as nossas manias que queremos obrigar o outro a suportar. Eu moro em mim, mas e aí, vamos dar um passeio? Soube que na esquina da sua casa tem um sorvete de frutas maravilhoso.


SUÉLEN EMERICK.
24 anos. Brasiliense que vê poesia no cinza do concreto. Jornalista que escreve por/com amor. Uso vírgulas e crases imaginárias pra contar histórias, e o coração pra vivê-las.

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