O amor é brega. E quem não é?

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

PARECIA AMOR.



"Parecia amor! Parecia amor! Parecia amor!"

Fernanda repetia isso dentro dela várias vezes ao dia. Era uma tentativa de se auto justificar, de explicar pra si o porquê de ter se permitido passar por tudo aquilo.  Finalmente tinha acabado. Foram dois anos destrutivos, cheios de ciúmes desmedidos que a fizeram esquecer quem realmente era.

Fernanda sentou-se em frente ao computador, respirou fundo e começou a procurar os antigos amigos que tinha excluído a 'pedido' de Dênis. Eram muitos. Ter ex namorado na lista de contatos? Jamais. E também aquelas amigas descoladas que pra ele eram má influência? Também não pode. Até alguns amigos que Fernanda nunca tinha sequer ficado, mas que por algum motivo (ou sem motivo algum) despertavam a ira do parceiro. Muitos tentaram alertá-la, mas acabavam virando apenas os vilões da situação que queriam, a todo custo,  lhe afastar de seu grande amor.

Vamos fazer uma pequena pausa aqui. Você pode estar se perguntando ao ler esse texto: por que ela aceitava tudo isso? É absurdo e gritante demais.

Pois é, mas não é tão simples como parece. A gente tem o péssimo hábito cultural de achar que violência é somente a física. Mas estamos lidando aqui com um tipo diferente de violência: a psicológica. Não vou dizer que ela é pior do que as outras, mas é subjetiva e talvez por isso a mais difícil de identificar, lidar e tratar. Pra quem está de fora pode parecer tudo muito claro, tudo óbvio demais. Mas a dependência psicológica disfarçada de amor e cuidado tem justamente esse poder: o de cegar.

Não é algo do tipo : "Você tem que excluir tal pessoa da sua vida" "ou são elas ou eu". Não, não é assim. Talvez até chegue nesse nível deprimente, mas antes é todo um cruel processo, uma espécie de lavagem cerebral mesmo. O parceiro convence que não é possível viver sem ele em hipótese alguma.
Fernanda acreditava que não daria certo mais com ninguém, e por isso estava disposta a fazer de tudo pra manter Denis ao seu lado. Afinal ele era a grande chance da sua vida de ter um amor. Ou pelo menos era isso que ele queria que ela acreditasse.

Agora acabou. Tava na hora de Fernanda se reconhecer como pessoa e como mulher principalmente. Depois de negar a ajuda de familiares e dos poucos amigos que restaram, ela finalmente se convenceu que precisava de ajuda profissional. Relutou e quebrou seu próprio preconceito com a terapia. Revirou a bolsa e encontrou nela um cartão antigo com o número de Carla. Uma terapeuta que sua amiga Larissa tinha indicado meses atrás.

— Você pode não querer me ouvir agora, mas por favor, em nome da nossa amizade, guarde isso, Fê.
Eu também passei por um relacionamento abusivo e, até então, a gente pensa que nunca vai acontecer com a gente. Só com os outros.

— Lari, vou guardar porque você está pedindo, mas não estou em um relacionamento abusivo. Eu e o Dênis estamos apenas numa fase difícil, mas tenho certeza que esse ciúme todo dele vai passar.

Larissa calou-se. Por ter passado por uma situação muito parecida, sabia que não adiantava argumentar. Fez sua parte e agora torcia para que o tempo fizesse logo a dele.

Demorou, mas esse aguardado momento chegou. E aquele pequeno pedaço de papel com o número de Carla, não foi em vão. No verso, havia a seguinte mensagem da amiga: "Se te prende ou dói, não é amor". Fernanda marcou uma consulta e se sentiu à vontade com a terapeuta. Ter indicação de uma profissional preparada pra lidar com o caso foi de suma importância.

A terapia estava ajudando bastante Fernanda a resistir qualquer contato de Dênis, a todas tentativas dele de reatar com aquele discurso ameaçador "se você não for minha não vai ser de mais ninguém". Fernanda estava aos poucos aprendendo que ela só podia ser dela. E isso era um bom começo pra não ser mais refém das suas ameças diversas que iam desde "revenge porn" até cartas de suicídio, pra ela se sentir a vilã da situação, a megera, como sempre.

— Entra, Fernanda. Vamos começar essa sessão falando de coisa boa. De quem você é, de quais eram seus programas preferidos antes de Dênis.

Fernanda suspirou e sentiu algo totalmente diferente. Era uma saudade dela mesma.

— Ah, doutora. Eu sempre gostei muito de sair. Ficar em casa final de semana era fora de cogitação. Gosto de parques, exposições, shows e principalmente de estar rodeada de amigos.

—  Eu senti uma certa nostalgia nesse seu suspiro. Estou certa?

— É, talvez seja isso.

— Vou te sugerir um exercício. Que tal você ir a algum parque esse final de semana? Algum que você frequentava antes com seus amigos. Mas agora, ir sozinha.

— Sozinha?

— Sim. A ideia é te mostrar que você pode estar feliz em qualquer lugar seja sozinha ou acompanhada. Só assim você se livrará das lembranças também dos lugares que frequentava na companhia do seu ex parceiro. Topa?

— Vai ser algo inédito. Nunca gostei de fazer praticamente nada sozinha. Mas, eu topo. Acho que você está certa. Isso pode me fazer bem.

— É uma forma de você começar do zero. E então você vai se reaproximar naturalmente dos seus amigos e tudo mais. A prioridade agora é marcar um encontro com você. Na próxima sessão você me conta se deu certo.

Fernanda não esperou o final de semana. Saiu do consultório e já foi logo no seu parque preferido. Ela adorava correr lá, mas Dênis não incentivava muito que ela fizesse exercícios físicos. Principalmente por causa da legging colada que marcava seus quadris largos. Por causa da implicância dele, foi diminuindo a frequência até parar de vez. Como não estava com roupa apropriada dessa vez, apenas andou em volta do lago artificial que adorava e comprou uma água de côco bem gelada. Depois sentou-se na sombra de uma árvore imensa e sentiu uma deliciosa brisa no rosto.

Naquele momento, por um instante que fosse, não existia mais ninguém. Ela esqueceu completamente as dores e marcas deixadas por Denis. Fernanda fez algo que não fazia há tempos: sorriu. É, a vida ainda pode ser boa.

SUÉLEN EMERICK.
24 anos. Brasiliense que vê poesia no cinza do concreto. Jornalista que escreve por/com amor. Uso vírgulas e crases imaginárias pra contar histórias, e o coração pra vivê-las.

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