O amor é brega. E quem não é?

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

MAS ELE NUNCA ME BATEU.



Tinha dias que nada de mais acontecia. Era mais beijos e abraços, bebidas e saídas com os amigos — dele. Os meus ele nem conhecia, porque não queria.

Acontece que eu não consigo esquecer os dias em que ele não me batia, mas minha alma doía. Eu chorava quieta por vergonha e pra ver se amenizava a angústia. Eu me via perdida e não sabia me encontrar, ele queria sexo e eu não podia negar. Era tudo estranho. Eu era a gorda e louca, pois me sentia mal quando percebia os olhares pras outras e os dedos apontados pra mim, afinal eu não devia ser assim.

Tinha dias em que minha saia estava muito curta, em outros meu decote que era vulgar, mas sempre tinha algo errado em mim e ele ali pra me menosprezar. Tinha dias que eu não podia ligar. Ele estava de saco cheio e a gente não iria se encontrar, em outros eu já nem esperava, mas eu ia ao encontro dele pois a gente precisava brigar.

Mas ele nunca me bateu, eu também não sou fácil! Só me xingou algumas vezes e depois se desculpou, foi só porque bebeu demais, estava estressado no trabalho. Eu entendi seus motivos e nada além naquela noite aconteceu.

Ele era meio nervoso, gritava sempre que saía da paz, mas eu amenizava os conflitos tentando não falar nada — não adiantaria, aliás.

Tinha dias que eu me sentia mal, ele criava birra e todo mundo percebia. Era pela cobrança que fazia, era pela ausência que eu devia. Mas ele nunca me bateu. Só levantou a mão pra mim, um dia no feriado. Eu devolvi um grito e ele ficou irado. Eu sempre engolia seco, mas nesse dia eu fiz o contrário.

Tinha dias que ele me queria e eu esquecia o quanto era esquecida na maioria das vezes. Ele me ligava e eu em pouco tempo estava lá. Pronta e apaixonada. Desmemoriada!!!

Tinha gente que não entendia, porque com tantas brigas eu não o deixava e seguia em frente. Eu não achava os motivos pra terminar o casamento, ele era bonzinho comigo, o grito, a briga e o ciúme eram só coisas de momento.

Tinha dias e dias, e ia a vida que se esvaía, eu não percebia. Mas ele não me batia.

Um dia eu cortei o cabelo, passei meu batom vermelho, parei em frente ao espelho e meu reflexo estava sangrando, minha alma surrada clamava para se enxergada.

Aquela mão que me puxou pela nuca me levou pra baixo, meu rosto — que tinha o vermelho na boca — derramava sangue por socos ao meu redor no chão. Ele, que não me batia, acabou quebrando minha cara e me trazendo a razão. 

Eu pude ver que aquela surra doeu bem menos do que aquela prisão. Eu já apanhava na alma e no coração. Ele me fazia refém de um amor inventado por mim e por ele, dono de mim na relação.

A sirene ecoava, a polícia chegava, eu suja — e livre — no piso gelado afetado pelo quente que escorria de mim, ensangüentada! Ele, doente que era, esperou do meu lado, assistindo a cena que ia levá-lo pra cela. 

JOANY TALON.
Pra quem acredita em horóscopo é Canceriana, nascida em Araruama no dia 15 de julho de 1986, assistente social pela Universidade Federal Fluminense, e agraciada por Deus pelo dom de transformar em palavras tudo que sente, autora dos livros “Cotidiano & Seus Clichês” e “Intrínseco” e co-autora no livro “Pequenices Diárias”

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