O amor é brega. E quem não é?

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

HÁ VOCÊ EM TODO CANTO



Quando dei por mim, já estava armada até os dentes. Eu lembro bem o dia que dei um passo para trás, mas achei que iria recuar um tanto e nada mais mudaria. Como fui tola. Eu não havia percebido que meus pés já estavam fora do chão e, dar um passo para trás, nada mais foi que por os pés de volta em terra firme. Assim que a sola do sapato repousou tranquilamente no chão, comecei a me armar.

Você tem todas as armas para destruir minhas armaduras e eu finjo que não as vejo, por pura defesa. Eu me calo por defesa. Eu me escondo por defesa. Eu sou uma estúpida idiota, mas é tudo, tudo, tudo, só para me defender. E, quando dei por mim, já estava armada até os dentes – e triste.

Eu estou pincelando uma realidade comum e escondendo os sentimentos debaixo do tapete, porque eu não quero lidar com eles. Mas eu sei que eles estão ali, porque a rotina não me deixa esquecer. Eu amo detalhes, sabe? E tem detalhes teus demais, por todos os lados, todos os dias. É uma música que invade minha playlist, uma imagem que aparece na minha timeline, um poema que ouvi na rádio, um sorriso que enviam sem querer e sem saber o sentido.

É você, ali; no riso, na música, no pôr-do-sol, na grama orvalhada, no vizinho que dedilha um violão surrado. E eu finjo que não vejo, mesmo os pelos denunciando que detectaram a tua presença. Sem me dar conta, meus dedos na procuram teu nome e eu quero contar qualquer besteira, como fazia antes de me armar por completo. Eu pensava menos, agia mais. E arrepiava inteira, o tempo todo.

Eu acordava buscando teu bom dia. E o dia só ficava bom depois daquele riso-dois-pontos-e-parênteses. Eu ria por fora. Eu sorria por dentro e era um desses sorrisos que tingem a íris, sabe? Quando o olho fica pequenininho de felicidade? Aí o olhar mudava o tom, entre um verde-folha-seca e um castanho-qualquer-cor e desviava os olhos do espelho que era pra não ver o tanto de você tinha na íris que acabou de brilhar também.

A rotina vai se arrastando. Pesada. Eu não procuro mais o bom dia, porque sei que ele quase não vem. E eu minto para mim que está tudo bem e que não faz falta. Mas faz, e eu fico miúda e até o céu muda de cor. Agora que dei por mim, estou armada até os dentes. E talvez você esteja cansado de me desarmar.

E, honestamente, eu te entendo. E vou dizer que tudo bem, porque eu quero acreditar que está tudo bem também.

MAFÊ PROBST.
Santa Catarina. Escritora, blogueira e engenheira. Praticamente uma hipérbole ambulante. Autora de Saudade em Preto e Branco. Tem dezenas de projetos em andamento e sonha abraçar o mundo. Colecionadora de sorrisos, dentes-de-leão e clichês.

3 comentários:

  1. Minha nossa senhora! Fê, você está escrevendo cada dia mais lindamente. Consegue envolver a gente nas histórias e isso é tão bonito de ver e gostoso de sentir.
    Mais um texto lindo!

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