O amor é brega. E quem não é?

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

EU ACHEI QUE ERA AMOR E, POR AMOR, CEDI.


A gente se esbarrou por uma coincidência da vida. Entramos no mesmo bar, na mesma hora e conhecíamos as mesmas pessoas. Você puxou um banquinho e se sentou ao lado meu, eu te estendi a mão e um sorriso. Teus olhos roubaram a atenção dos meus e, sem me dar conta, eu já estava fixada na tua. Você pediu um chope, eu pedi outro.

— Achei que você pediria algo mais feminino. — você disse. Eu cancelei o chope e pedi uma taça de vinho, ignorando o calor. Teu riso irradiou para mim e eu acabei sorrindo também — mais uma vez sem me dar conta.

Você me deu um abraço e me puxou para um beijo. Eu retribui e me enlacei na tua. Engatamos um relacionamento sério, sem ser. Eu era o teu beijo de boa noite e o abraço das manhãs, mas não éramos nada durante o dia, salvo uma música ou outra, trocadas entre e-mails divertidos.

Saímos outra vez. Você me chamou para jantar na tua casa e eu fui. Você me olhou de cima à baixo e reclamou dos meus sapatos sem salto. Dizia gostar mais das minhas pernas mais alongadas e pedia (pedia?) para que eu nunca mais usasse, entre um beijo na nuca e outro puxão de cabelo. Não tinha como não ceder. Cedi. À esse pedido e outros tantos.

Não prenda teu cabelo, deixa crescer... Não gosto dessa cor na tua unha... Batom vermelho não fica bem contigo... Você devia emagrecer... Para de comer chocolate...

E fui aceitando. Mudando. Moldando. O cabelo chegou quase na cintura, eu fazia as unhas toda semana, joguei fora meus batons escuros, abandonei as rasteiras, as sapatilhas e todo novo encontro passou a ser um martírio. Eu pensava vinte vezes antes de escolher uma roupa para vestir, porque tinha que estar sempre impecável. Eu precisava da tua aprovação, todo tempo — tempo inteiro. Fui me perdendo de mim.

E parei de comer.

Eu achei que era amor, sabe? Todo esse cuidado, todos esses elogios. Cada vez que eu cedia à algum pedido teu, eu me sentia a mulher mais incrível do mundo. Você era bom nos chamegos. Você era bom em retribuir cada vez que eu mudava um pouco. Passei a achar normal não dividirmos a ducha e sair sempre pronta e impecável do chuveiro. Passei a achar normal ter uma refeição só por dia, na neura de emagrecer. Passei a achar comum sermos eu e você — e ninguém mais. Passou a ser rotina excluir amigos e família. Porque bastava eu e você, desde que eu estivesse E X A T A M E N T E do jeito que você queria.

Eu achei que era amor e, por amor, cedi.

(...)

Eu me despedi de você usando chinelos.

Eu pesava quarenta e sete quilos, mesmo tendo um metro e setenta e dois de altura. Chorava cada vez que minha mãe me obrigava a comer. Mesmo ainda achando que era amor, eu resolvi me amar primeiro e fui me despedir usando chinelos. Você reclamou dos meus chinelos antes de associar o que eu tinha acabado de dizer.

Eu achava que era amor, e cada pedido teu de ‘fica’ me desmanchou em mil pedaços. E eu continuei partindo, porque tuas desculpas eram vazias demais. Eu fui, você socou a parede e me disse, com toda a ira do mundo: se sair por essa porta, não precisa mais voltar.

A porta se fechou com um baque surdo. Meu coração se despedaçou em mil pedaços. Eu me remontei inteira só para te agradar porque achei que era amor.

Mas não era.

MAFÊ PROBST.
Santa Catarina. Escritora, blogueira e engenheira. Praticamente uma hipérbole ambulante. Autora de Saudade em Preto e Branco. Tem dezenas de projetos em andamento e sonha abraçar o mundo. Colecionadora de sorrisos, dentes-de-leão e clichês.

1 comentários:

  1. Mafê, esse virou meu novo texto preferido teu. Me identifiquei demais e tenho certeza que muitas mulheres também. Não tenho mais palavras. Tenho lágrimas, serve?

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